ALAORPOETA

ALAORPOETA

15 setembro 2013

EU É O UNIVERSO




















Era longe só podia ser dentro de mim
          onde comerciantes dão esmolas
          para elefantes nas ruas
Donas de casa flertam garotos para se vingar
          de maridos castrados
A noite não dura quatro dias negros
          onde pássaros rastejam de fome
          enquanto cobras fazem festa no armário
Era longe mas parece que foi sempre
          o teatro de bolso redondo
          onde bocas se acasalam
          chupando palitos de fósforo
Há tantos caminhos sonhos loucos buracos
          antes da carne germinar
          de perfumes mágicos do esquecimento
Era longe mas não o bastante para o sexo
          comer alegrias mortas
          em camas de algodão
          onde criaturas nuas vestem
          suas primeiras roupas do prazer infeliz
          e esperam como rotina o próximo trem
          de fogo e apaga
Onde veículos humanos marcarão hora para atravessar
          apopléticas esquinas
          dos que vão e vem por nada
As pernas serão do tamanho dos dedos
          acorrentados em teclados
Pessoas corcundas terão olhos enormes
          em bundas achatadas
          na solidão de seus quartos
Era longe só podia ser dentro de mim
          a grávida vida possível
          se o eu morrer acaba

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Salvador Dali

7 comentários:

  1. Todo texto está em um contexto e em um contexto podemos ter vários textos, cada um com o seu contexto mas mesmo assim me atrevo a perguntar: Eu é o universo ou Eu e o universo. Porque se for você e o universo, ta danado, pois é o que vivo. Mas se for Eu é o universo, estranho o tempo do verbo e aí então é que nao entendo nada mesmo mas me embasbaco diante da sua verve poética.

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  2. Meu caro Hamilton, "eu é o universo". É claro que não vou dizer o porquê disso e daquilo, pois também não sei, mas sinto, sinto muito. A razão mata a poesia. O "eu" nos escapa, não sou eu, "eu é um outro". O poeta que diz e vê o que todo mundo diz e vê, está morto, não é poeta. "O verdadeiro poeta é um roubador de fogo". Tem de pensar, curtir e cair de boca. Esse poema é uma profundidade... Daqui a duzentos anos ainda se debruçarão sobre ele. Tudo o que eu disser será usado contra mim. Levarei só comigo o segredo, porque qualquer revelação é uma mentira. Mas arriscaria para você, que é meu amigo, apenas um detalhe: "a grávida vida possível, se eu morrer acaba." Sim, "eu é o universo". Mas não limite o "eu". Não sou eu. "Eu é um outro". O poema apesar de citar algumas imagens aparentemente negativas, é um hino à vida, como todos os meus versos. O pessimismo que alguns cegos veem na minha poesia é falso. Sou um dionisíaco, para mim a vida é única e deve ser uma eterna festa, onde se deve buscar a exacerbação de todos os sentidos sob pena da mediocridade. Cada ser é único e insubstituível. As pessoas perdem muito tempo com mortos insepultos e se esquecem que "eu é o universo". "Que a vida não seja eterna, posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure". Por que o comerciante não poderia dar esmolas a um elefante na rua? Donas de casa serão sempre putas em potencial, ainda mais com maridos insensíveis que acham que apenas convenções sociais conseguirão aprisionar os instintos (aqui reside a verdadeira felicidade!), por que não posso acasalar-me chupando palitos de fósforo? ou outra coisa, ah!! e o homem do futuro, já imagino que todos teremos que marcar hora pelo computador para atravessarmos as ruas congestionadas de carros... enfim... "a grávida vida possível", estamos sempre parindo um mundo ideal. Há muito mais coisas do que os nossos olhos treinados para a insignificância desde à infância podem ver. Porque "eu é o universo", o resto são nossas sombras. Mas não limite o "eu". Eu não sou eu. "Eu é um outro". Um grande abraço de seu sempre Alaor Tristante Júnior.

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  3. Muito bom, o poema. Lembra, pelo clima, os versos de Zé Limeira, o chamado Poeta do Absurdo, como estes:

    O meu nome é Zé Limeira
    De Lima, Limão , Limansa
    As estradas de São Bento
    Bezerro de Vaca Mansa
    Valha-me, Nossa Senhora
    Ai que eu me lembrei agora:
    Tão bombardeando a França

    Ninguém faça pontaria
    Onde o chumbo não alcança
    E vou comprá quatro livro
    Prá estudá leiturança
    Bem que meu pai me dizia:
    Jesus , José e Maria,
    São João das Orelha mansa


    Solha

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    1. Querido Solha, mais uma vez agradecido por ler minha poesia. Faço questão de cumprimentar pessoalmente cada leitor meu, pois sei que são poucos, mas para mim os poucos valem ouro. Aproveito a oportunidade para dizer-lhe que estou torcendo muito para que seu filme "O som ao redor" ganhe o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2014. Falar do absurdo é lembrar de Albert Camus, que no seu livro "O Estrangeiro" apresentou-nos o mundo como essencialmente sem sentido e assim, a única forma de chegar a um significado ou propósito é criar um por si mesmo. Assim, é o indivíduo e não o ato que dá significação a um dado contexto. Acredito que a poesia, como Rimbaud acreditava, é a busca do insabido através do desregramento de todos os sentidos. O nosso poeta Manoel de Barros também acredita que "a razão mata a poesia". O sentido quem dá é cada um de nós, afinal, "EU É O UNIVERSO". Obrigado pelos versos do Zé Limeira. Um grande abraço de seu sempre Alaor Tristante Júnior.

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  4. Querido Alaor,
    Fiz um longo comentário, mas deu problema no envio. Sumiu. Aliás, não é a primeira vez que isso me acontece... Incompetência digital.
    Parabéns.
    Realmente: "Eu é o Universo". cada vez que um eu morre, morre também um universo especial e particular. Mandarei meu comentário por e-mail Abraços Maria Luzia.

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  5. tenho recebido suas poesias gosto delas mostra sua inquietação pelo cotidiano e o universo que nos cerca.sucesso

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