ALAORPOETA

ALAORPOETA

28 dezembro 2013

EDITAL DE ANO NOVO: HUMILDADE PERANTE A NATUREZA

























Inventei atalhos no ano pretérito
descobertas incríveis do consolo
que ninguém vê mas dançam
que a noite tem medo 
do escuro por isso alerta
fecha os olhos na insônia
que o cachorro vê corações
e sorri pela ponta do rabo
mas isso todo mundo já sabe
que o homem sorri por fendas falsas
que o tempo perdido às vezes estaciona
e pede carona disfarçado
de grande amor da nossa vida
que as grandes vitórias estão sempre
para o próximo dia útil seguinte
enquanto nossos passos tropicam no gozo
efêmero da luz sem fim do túnel
mas há um cubo dourado de esperança
que enobrece a morte pessoal de cada um

Neste ano vindouro pisarei a merda
até que o herói dentro de mim
desande em vômitos de limpeza
registre-se publique-se cumpra-se

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Lucian Freud

20 setembro 2013

ENQUANTO O SEU LOBO JÁ VEIO...





















Já o sol masturbava a esperança da terra,
- oh! crianças! seguem num sono de perder
o fôlego! têm na tez a figura séria
da natureza! - no chão frio do amanhecer

padece o piar de envenenadas cidades
e ao longe ainda se ouve o uivo de lobos.
Não era um quarto era um celeiro de milagres
à espera do tempo que se negava ao sopro.

Meninos e meninas num cobertor negro
sonham; porque a vida não os dota do peso
insustentável do ser: - crianças são livres!

Enquanto os homens velam a banalidade
do mal e assistem estúpidos ao naufrágio,
corpos infantes dormem na cena do crime.

ALAOR TRISTANTE JÚNIOR

Ilustração:crianças vítimas de armas químicas na Síria.

15 setembro 2013

EU É O UNIVERSO




















Era longe só podia ser dentro de mim
          onde comerciantes dão esmolas
          para elefantes nas ruas
Donas de casa flertam garotos para se vingar
          de maridos castrados
A noite não dura quatro dias negros
          onde pássaros rastejam de fome
          enquanto cobras fazem festa no armário
Era longe mas parece que foi sempre
          o teatro de bolso redondo
          onde bocas se acasalam
          chupando palitos de fósforo
Há tantos caminhos sonhos loucos buracos
          antes da carne germinar
          de perfumes mágicos do esquecimento
Era longe mas não o bastante para o sexo
          comer alegrias mortas
          em camas de algodão
          onde criaturas nuas vestem
          suas primeiras roupas do prazer infeliz
          e esperam como rotina o próximo trem
          de fogo e apaga
Onde veículos humanos marcarão hora para atravessar
          apopléticas esquinas
          dos que vão e vem por nada
As pernas serão do tamanho dos dedos
          acorrentados em teclados
Pessoas corcundas terão olhos enormes
          em bundas achatadas
          na solidão de seus quartos
Era longe só podia ser dentro de mim
          a grávida vida possível
          se o eu morrer acaba

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Salvador Dali

14 setembro 2013

MÉNAGE À TROIS
























Agarrei-a de frente como convém a um forte;
com a lança jorrando fogo engaiolei seu fígado
atroz de esperanças; ao lado seu esposo absorve
inerte e se prostra ao machado rude do designo:

- só lhe resta expiar; passo a lubrificar as cartas
como rei manipulo o membro viril dos que podem;
a dama se curva à marcha mas cava intensas marcas
no rosto; há um valete invencível na desordem.

Chupo seus mamilos tônicos e erecto espezinho
o rego virgem fecal aos cônjuges proibido:
- gemidos profanam as invenções das leis divinas.

A sorte me trouxe ao mundo para fazer-me eterno...
comer a Vida à vista impotente de seu marido
traído, a Morte! - pois desde o início já era o Verbo.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: "morte e vida", pintura de Gustav Klimt

09 setembro 2013

AH! O AMOR!


























Estava nuvem quando me encontraram
só para dizer que eu era gente
com a cabeça na lua...

Esculpi o tempo de pérolas
me encontraram quase orgulho
só para dizer que eu era gente
de coração muito duro...

Corri pelos mares rosa
fantástica dos que procuram
Deus ou Diabo ao meu lado
insistia que eu era gente
cheia de pecados...

Era fogo mergulhado em água
quando uma mulher apaixonada
saiu de dentro de mim
só para dizer que me amava...

Também não era gente
era minha outra metade...

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Oswaldo Guayasamín


08 setembro 2013

EFEMERÓPTEROS













                                    divagando
                  numa brecha de vida
               a partida nas duas pontas
                    uma carne de luz
                   uma boca estranha
      não tinha estado nem pai nem mãe
                        não era dona
            ou filha do dono do mundo
                procurava a si mesma
albergada por estrelas que sussurravam
            - o seu tempo me apaga

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: imagem da internet

05 setembro 2013

PASSEIO PELA CIVILIZAÇÃO


























Sair para as ruas vermelhas e nuas
de sangue hipertenso da alma vadia.
São as ruas as veias que sinto e não vejo
e carregam alucinadas a morte dos sonhos.
Mas se fico trancado o Diabo passeia
enquanto Deus me estupra no quarto às escuras.
Há uma esquina dúbia de direções impostas
que se eu pudesse voar cavava um buraco
porque só os buracos me fazem gozar.
Hemácias leucócitos plaquetas e plasmas
são monstros com cara de gente doentes.
Acham de me dar oxigênio depois me matam
com suas crendices certezas e piolhos hercúleos
sugando a carniça de vivos-mortos insepultos.
Comigo não porque há tempo comi meu anjo
da guarda baboso que era uma fada africana
para que eu pudesse surrá-lo todos os dias
sem direito a maria da penha das frígidas.
Agora quando caio emburacando orifícios lúgubres
ele me levanta para que eu possa cair novamente
sobre buracos do prazer que valham a pena.
Enquanto o operário sem rosto da sociedade vomita
seus dias na insignificância do progresso econômico
ando pelado na caverna de todas as cores do mundo
e pinto esperanças para quem restar dos homens
porque nas ruas do instante meus pés pisam a merda.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Viktor Safonkin

01 setembro 2013

DESVÍNCULOS EM ELOS


















Descumprir a ordem para trair
porque trair é descumprir a ordem:
amores podem inventar o belo
mas jamais a beleza do mistério

matar a fidelidade à infância
alimentar-se de impressões românticas
para adulterar as regras do pai
procurar virtudes mudas das pedras.

Só não pode garantir o idílio
porque a maior excitação da alma
é ser traída pelo próprio corpo

até sorver os errantes vestígios
dos motivos cada vez mais distantes
da primeira insanável traição.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: "Os argonautas", pintura de Max Beckmann