ALAORPOETA

ALAORPOETA

25 setembro 2012

CASAL FELIZ

























Eu estava partindo
vinha vindo o destino

segurei o momento
olhos presos no tempo

tinha um quê de agora
tão urgente na hora

o amor forte no peito
mata a fome no leito

se havia algum plano
faz mais de vinte anos

sempre juntos nós vamos
não me canso eu te amo!

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: tela de Adelaide Moça

23 setembro 2012

MEU RIO SOLIDÃO






















A ponte de madeira; às vezes o vento
trazia-me a chuva: a preguiça sem remorso.
- Como suportar do sol o ardor estupendo,
bocas e dentes cortejando meus esforços?

Sigo assentado; o talho da infância nas costas
como uma carapaça fiel de saudades;
ainda lambo na carne a unção de respostas
porém mudas aos gritos das fatalidades.

À frente a distância; espectro fluxo infindo
céus e olhos opacos de algozes juízes
se não outro o mesmo pardal que no domingo
era Páscoa matei num eterno deslize.

E já se foram mil desculpas ao fantasma
que voa imortal se o matei porque o ninho
infértil grava a lápide com suas asas
e faz do menino o pai do homem arrimo.

A ponte imóvel; a quem se nega o passado
de silêncio molhado sob suas tábuas;
o futuro encoberto no útero vago
entre curvas do rio ou nas quedas das águas.

Meus pés mergulhados para ser outro homem!
se a ponte herdada estigmatizou o destino
refaço-me de ondas curtas da desordem,
fui chuva sou o rio... continuo sozinho.

Do fundo prata confronta-me um peixe órfão:
- Não fui eu quem puxou o anzol de sua mãe,
basta-me a dor de saber que o suor no chão
são prantos desejando-me: - Deus te acompanhe.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: Arnold Böcklin 

21 setembro 2012

VOTOS PARA O ARTISTA MORTO


























passa o artista morto
no bolso lava seu rosto
transfigurado em santinhos
planeja o ninho dos outros

sua arte nem era tão bela
tão forte tão arte capaz
de transformar o mundo
precisou do próprio corpo

ao se extraviar político
desmentiu a poesia
recusou a eternidade
assumiu a superfície

passa o artista morto
alguém lhe pede um poema:
dá um prato de comida
então diz: - Segue o enterro!

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura do artista iraniano Iman Maleki