ALAORPOETA

ALAORPOETA

23 setembro 2012

MEU RIO SOLIDÃO






















A ponte de madeira; às vezes o vento
trazia-me a chuva: a preguiça sem remorso.
- Como suportar do sol o ardor estupendo,
bocas e dentes cortejando meus esforços?

Sigo assentado; o talho da infância nas costas
como uma carapaça fiel de saudades;
ainda lambo na carne a unção de respostas
porém mudas aos gritos das fatalidades.

À frente a distância; espectro fluxo infindo
céus e olhos opacos de algozes juízes
se não outro o mesmo pardal que no domingo
era Páscoa matei num eterno deslize.

E já se foram mil desculpas ao fantasma
que voa imortal se o matei porque o ninho
infértil grava a lápide com suas asas
e faz do menino o pai do homem arrimo.

A ponte imóvel; a quem se nega o passado
de silêncio molhado sob suas tábuas;
o futuro encoberto no útero vago
entre curvas do rio ou nas quedas das águas.

Meus pés mergulhados para ser outro homem!
se a ponte herdada estigmatizou o destino
refaço-me de ondas curtas da desordem,
fui chuva sou o rio... continuo sozinho.

Do fundo prata confronta-me um peixe órfão:
- Não fui eu quem puxou o anzol de sua mãe,
basta-me a dor de saber que o suor no chão
são prantos desejando-me: - Deus te acompanhe.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: Arnold Böcklin 

Um comentário:

  1. Ponte herdada: ser humano. Cabeça de ponte no passado, sonhos devorados dias afora, indagações: como suportar o corroer dos esforços?Respostas? Não se fazem ouvir,mas as fatalidades gritam. Remorsos? Se no céu do passado ainda voa o pardal assassinado, deslize de menino que tornado homem e arrimo pensa no ninho do pássaro abatido. Ponte para o futuro todavia encoberto...O refazer-se, pés na origem da vida, a água.Solidão,cobiçado pela terra.
    também lhe digo: -Deus te acompanhe, sempre Maria Luzia

    ResponderExcluir