ALAORPOETA

ALAORPOETA

24 julho 2012

O PERNILONGO





















Como poderia matar
                     um ser que voa
quando tenho os pés
                     fétidos
presos ao chão
                     humano

ainda que o céu
seja a laje branca
                     insípida
do quarto iluminado
pelo sol da philips

interrompo a leitura
e deixo-o à vontade
nutrir-se do sangue
                    anêmico
de vasos abandonados.

Algum tempo depois
                   sem limites
                   obeso
suas asas levam-no
                   ao rés do chão
do prazer exacerbado.

Apático ecoa o horizonte
em busca de seu oráculo
                   outro pernilongo
mas como poderia matar
                   um ser que voa.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura do artista polonês Bezt

5 comentários:

  1. Um poema legal, todavia, letal!
    Se um não mata o outro mata.
    Então um se propõe morrer, ainda que picado, pelo prazer de ver o outro que pica morrer extasiado com a parte que lhe compete de alimento sangue, essencial pra matar a vontade de viver de um, essencial para matar a fome do outro.
    Quanta genética sanguinária há entre ambos, alinhavando o matar e o morrer, para viver numa gota que seja!?
    E deixe que venham outros, porque precisamos oferecer alimento de vida para aquele que transmite a morte.
    Bacana demais o seu poema. Quantas leituras podemos tirar dele! Parabéns

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  2. Alaor, só mesmo você pra fazer poesia com pernilongo, nunca imaginei esta palavra num verso e, no entanto, você conseguiu além da profundidade poética que lhe é peculiar, meus parabéns.

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  3. Queridos leitores, antes de mais nada, obrigado pela leitura deste humilde poeta. Sim, são tantas interpretações que o poeta já está calado. Parece-me que instintivamente formulei uma antítese do poema anterior "Enclausurados". A comodidade segura de um deu passagem ao delírio do outro. Nos dois a vontade de voar, mas o conforto cortou-me as asas. Em ambos, restou-me o chão. Mas será que um segundo que seja nas nuvens, valeria a dor da queda? Eis minha dúvida. Enquanto isso, no teatro da vida, sinto-me estático na plateia, louco para participar no palco da cena eletrizante, mas por que eu haveria de correr riscos se minha poltrona é confortável? Então, admiro quem voa, chego a invejá-lo, porém, aguardo pacientemente nosso encontro no chão. Asas para que as quero. Como poderíamos matar um ser que voa: veja o político em busca do poder (até a Ana, poetisa dos sonhos, está voando), veja meu irmão que morreu feliz drogado (mas voou), o sorriso inigualável de uma criança, os amores constantemente renovados do Vinícius de Moraes (como voou!), as andanças sem rumo por três continentes do poeta Arthur Rimbaud, que tinha pés de vento... Quando eu digo que "por que não deixo de ser o que sou para ser o que nunca saberei o que fui..." é porque já antecipo que não voarei. Ah! mas um dia ainda vou dar um voozinho curto que seja. Por ora, jamais, como poderia matar um ser que voa. Isso é também um ato de compreensão. E também de humildade perante a imensidão da vida. Não há regra. Viver simplesmente não basta. É preciso voar.

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  4. Hum... Deixa ver se entendi: o poeta fala da alma por meio do texto mas o texto é incompleto até ser interpretado, o que comprova a independência do texto em relação ao autor?
    Belíssimo texto caro Alaor! Devias publicar mais!!!

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  5. Alaor, gostei da metáfora escondida nas entrelinhas deste seu texto maravilhoso. Quem somos nós para tirar a vida de qual quer espécie. Se nem sabemos por que estamos vivos?
    Um grande abraço!

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