ALAORPOETA

ALAORPOETA

26 março 2012

ESPAÇAMENTO




















Entre o nada de antes
          e o nada do depois
                a vida floresce
entre dois túneis
                do esquecimento:
- O sonho da morte:


"ciranda cirandinha
vamos todos cirandar
vamos dar a meia volta
volta e meia vamos dar"


           são sensações
como quem pica o fumo
como quem morde a isca
seria uma comichão eterna
           se não fossem espaços
entre dois túneis:


"ai, eu entrei na roda
ai, eu não sei como se dança
ai, eu entrei na rodadança
ai, eu não sei dançar"


sonho curto? - pernilongo
sonho besta? - maçaneta
sonho pesadelo? - dois buracos outrora
residências duns olhos...
somente sonho? - não lembrar nada:


"por isso dona rosa
entre dentro desta roda
diga um verso bem bonito
diga adeus e vá se embora"


          "boi, boi, boi
       boi da cara preta"
      cercado alimentado
            à espreita
enquanto não acorda para o açougue
          rumina pensativo
no princípio da dignidade humana
          dos humanos:
- O sonho da morte são gotas
          de dipirona.


Alaor Tristante Júnior


ilustração: pintura de Hans Thoma (1839-1924)



11 comentários:

  1. Nossa, poeta, quanto sentimento!
    São nos espaços dos túneis que decidimos qual caminho a seguir.

    Uma excelente semana!
    http://pequenocaminho.blogpsot.com

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  2. " entre o nada do antes e o nada do depois". Gostei muito desta construçao. Eu realmente acho que nãa havia nada antes dos meus pais me conceberem, a nao ser o amor que um dia os uniu. E depois, para mim, nao há nada. Somos pó e ao pó voltaremos. Somos produção da natureza e a ela voltaremos. Mas Zé Mirtho, alguem fez um design de como deveria ser isto aqui. Ate que um dia eu conheça este alguem, continuo seguindo Darwin

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  3. A morte não existe, quando ela chega, já não estamos mais aí. Para quem morre, morremos todos, só que o morto não sente mais nada, é o Nirvana.

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  4. Olá. Vim apenas agradecer por estar seguindo meu blog - então, muito, muito obrigada! - e... acabei lendo este último post. Músicas da minha infância... e provavelmente de mais da metade do Brasil, também. Parece fazer tanto tempo, mas... ao mesmo tempo... parece ter sido ontem. Deve ser o sonho da vida.

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  5. Maravilhoso, Alaor!

    Essa construção da "roda da morte" foi sensacional.

    A cada dia mais lhe admiro!

    Beijos, poeta!

    Mirze

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  6. Curti sua dança de roda e me senti criança. Mas fiquei triste. Faça uma outra roda da vida. Uegente!
    Abraços!

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  7. Queridos leitores, mas esta é a roda da vida, que é a morte sonhando. Somos o sonho da morte. Não fiquemos triste, pois como disse Raul, "sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade". A diversão está na roda. Aproveitemos para manter a morte feliz, senão ela acorda... A morte não aceita desafios. A sua pena (nos dois sentidos) é o esquecimento. Vejam que o boi num momento de lucidez dentro do sonho, ruminou algo que sempre me pergunto: Alguém já perguntou para o boi o que ele acha do princípio da dignidade humana??? O homem vive como quem mata outros sonhos. Viver é, realmente, uma ação antipirética, analgésica e anti-inflamatória. Quando a dor passar, vem o sono sem sonho. Obrigado a todos que visitam meu blog e pelos comentários. Um grande abraço do poeta Alaor Tristante Júnior.

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  8. Alaor!

    Senti no seu belo poema a ciranda das duas rodas. Caso haja esta vida após a morte, a ciranda será igual. Vejo a morte como princípio e não fim.

    Beijos, POETA!

    Mirze

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  9. Impossível não seguir seu blog!
    Lindíssima a forma que escreve, parabéns!!!
    Passe em "Sinais de Mim" também? Lá tem um espaço reservado para você na Área Vip, basta clicar em 'seguir'... rsrsrs
    Beijocas!!! ^^
    http://www.sinaisdemimtl.blogspot.com.br/

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  10. Um poema que roda
    na antiga cantiga de roda
    ciranda de um passado
    que roda
    trança balança lembranças
    e nos leva a uma reflexão
    da ciranda da vida
    belo poema
    que relembra as dores da vida
    os medos construídos
    na infância
    e a brincadeira de roda
    porque ninguém é
    de ferro.

    Luiz Alfredo - poeta.
    na

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  11. Na ciranda cirandinha podemos dar meia volta e voltar, mas no túnel do nosso destino, não existe ponte para retornar. Muitas vezes a criança que existe em nós, se recusa a querer crescer, pois em direção ao infinito, não existe espaço para retroceder. Então... só nos resta crescer. Abraços.

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