ALAORPOETA

ALAORPOETA

30 maio 2011

ONIPOTÊNCIA

























Quando criança brincávamos
de ser gente importante
do mundo dos adultos.
Um dia fui Deus...
Enquanto José erguia cidades
Maria trocava fraldas
eu abobalhava uma formiga
numa caixa de fósforos redonda
azul vista do espaço
e dizia: - Comece a rezar!
Deixava um curto escape
de liberdade. Mas advertia:
- Só quando eu quiser!
Então a formiga, sempre,
porque era formiga
e não sabia o que fazia
desafiava pelo orifício
seu cérebro de saudade
e com olhos de finitude
lograva a consciência
na guilhotina de Deus.
Nunca entendi o despropósito
daqueles seres ínfimos
a corroer minhas dúvidas
porque jamais me deixaram
brincar de ser formiga.
Quando cresci
virei formiga de verdade.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: pintura de Willian Blake

22 maio 2011

PASSAGEIROS EM TRÂNSITO















Partíamos a destinos disformes
sombras etéreas de fátuos momentos
olhos ausentes vagando uniformes
o silêncio aflito dos pensamentos.


Peles multicores feitas de roupas
secretas coxas estirpes gravatas
borboletas cobras veladas bocas
e o céu metálico nas mãos fumaça.


Fixávamos suaves miragens
no átimo da infância livres bagagens
o último adeus do sabor das almas


a fila móvel nos pontos amargos
quando corpos doentes dos encargos
acolhem outras formas bem mais calmas.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "El Camión" (1929) - Frida Kahlo

19 maio 2011

GOLES EXTREMUS





























O sumo cálice transborda
e limpa formas adiposas
róseas faces náuseas bordas
sonsas famílias nebulosas.


O mijo pueril engole
o gole senil de quem viu
séculos de desprezo à prole
ébrios no consumo febril.


Entre olhares vagos vulgares
velando castrados os lares
louvadas as últimas taças


sob céus de chumbo impávidos
de rubro chão e mundos grávidos
do estupro de todas as raças.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Bacchus" - Peter Paul Rubens

14 maio 2011

GENEZÍRIUS HUMANUS
























Era uma vez ideais árvores
mil infinitas cores frutos
raízes débeis sonhos mármores
nutrindo sombra os cocô-rutos


lagartas farinavam cócegas
grávidas bobasletras-leques
cigarras fumegavam trócegas
entre um poema vários cheques


tudo começou com um sim
molécula a outras mulhéculas
penso existo logo dindim


houve récuas tréplicas féculas
da pré-história à palavrória
e havia o nunca e havia o sim.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "A árvore de amora" (1889) - Vincent Van Gogh

09 maio 2011

ESTUPOR


















Jaz sempre chegando.
Estagnar-se nas formas
que as duras pedras
fazem da gente:
soldados de retrato
salvos pelo flash.
Numa única lágrima
represado fôlego
interesses escusos
compromissos inadiáveis
boletos em trânsito
fantasmas insepultos
da inútil Metrópole
mas com dentes de ouro
chegando... chegando...


Oh! Seria bom partir
fecundar as fotos
fatos fogos feras
espermatozoide incauto
a mundos nascituros
órbitas sem núcleos
imprevistos gozos
nas possibilidades múltiplas
do útero infecundo.
Vivê-los intensamente
no futuro sem origem
rebento abandonado
do presente absoluto
partindo... partindo...


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: poeta Arthur Rimbaud

07 maio 2011

DUAS MÃES


























Dois cidadãos
filhos
da mesma cidade:
o X e o Y
X é pobre
Y é rico
valor de X:
um terço de Y
valor de Y:
3X
o Y forja o progresso
o X é invisível.


Dois filhos
do mesmo ventre:
o X e o Y:
X igual a Y
elevado ao
amor irrestrito 
de uma MÃE!


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Mãe com seus dois filhos" - William-Adolphe Bouguereau

04 maio 2011

NEGÓCIO DA CHINA























É uma grande empresa
de lavanderia
há séculos no ramo.
Seus donos originários
investiram na angústia
das sujeiras...
De capital
dizimamente
aberto nos sonhos
fechado
na contabilidade
cresceu infinitamente...
Ali não só
roupas sujas
são lavadas
mas narizes
bocas orelhas olhos peles
genitálias
e principalmente
o cérebro
tudo em nome
de JE$U$
O Límpido!
Os eternos clientes
se assoam coletivamente
mas almejam sempre
a limpeza egoísta
da individualidade
chave única
para a dignidade
do merecimento
do último modelo
conversível
da Chevrolet.
Os donos do sabão
executivos da empresa
colarinhos branquíssimos
sorriso colgate
sem remorso
almas lavadas
santificaram
dois jatinhos
nos quais gozam
pelos ares
o grande sucesso
da corrente
dos empresários
tudo em nome
de JE$U$
O Límpido!


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Crucificação" (1515) - Matthias Grünewald

01 maio 2011

GÊNESE PÓS-APOCALIPSE



















O último homem
atravessou a corda
bamba
da humanidade
soluçando
a linha do tempo
de uma nova ordem
e se fazendo
o Além do Homem.


A memória
foi reinventada
como flores de aço
nascidas no buraco
branco espúrio
dos vagos espaços
se fez também o rio
após grosso dilúvio
de sonhos azuis.


Sentindo-se só
arrancou do anverso
do peito ofegante
uma débil costela
comendo com gosto
dando-lhe pernas
numa junção de coxas
e cinco corações
sentidos
num mesmo ventre
orgasmos múltiplos
dos seios comprados
para amá-lo
eternamente
adjutora.


Funcionário Público
viu que isso
era bom
e já descansou
no segundo dia.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: filósofo  Friedrich Nietzsche