ALAORPOETA

ALAORPOETA

09 outubro 2011

VISÃO DE UM CACHORRO FELIZ






















Cheguei ao vazio e pus-me solitário
banindo qualquer intenção do nada
o dia flui e a noite abre as pernas
cálidas feridas em preto e branco.


Rasguei cavernas grotescas de sexo
fundo engolfei famílias de paixões
suguei a pintura do arco-íris
e me fiz estátua de cemitério.


Das ilusões passadas na montanha
guardei o ar reprimido do peito
tentáculos de flores e perfumes
a vida faz de conta entre dois túneis.


Porque desde o início fui máquina
o pensamento a serviço da dor
pintei meu tempo com olhos daltônicos
guspi nas trevas a luz que me falta.


Sede não sinto sou água de poço
se tenho fome procuro uma língua
que se faça entender pelo cifrão
uso meu bolso e me chamam Doutor.


Tenho vergonha da felicidade!
queria apanhar o sol com as unhas
na guerra fuçar sobre chão minado
gostava mesmo que o mundo acabasse.


Na reconstrução da minha história
sem pet shop meus pelos compridos
fétido voltaria a ser um lobo
selvagem no espelho da dignidade.


Alaor Tristante Júnior


ilustração: "Velho guitarrista cego" - Pablo Picasso

2 comentários:

  1. FORTE, mas belo poema!

    Você escreve muito bem!

    Beijos

    Mirze

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  2. E nem precisaria de lua cheia, basta o próprio conteúdo para que o espelho o reflita.
    Grande poeta! Grande, poeta! Poeta grandiosamente encantador!

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