ALAORPOETA

ALAORPOETA

27 novembro 2011

PERPETUAÇÃO





















Numa tarde sentei o tempo no meu colo
desnudo abobalhei o sentido da rosa
dos ventos que exausta caiu molhando os lábios
secos e se foi como num lapso trago.


Quis o tempo veloz abater-se imóvel
retratado no espelho dos olhos eternos
quando vi meus antepassados a cavalo
eu mesmo hesitava em cima duma árvore.


Sobre minhas coxas trêmulas nus pentelhos
ornamentais no rígido fogo das grelhas
à espera entre pernas do sopro de espermas.


Numa tarde sentei o tempo no meu colo
quando pude ser alguém capaz de apalpar
a eternidade nove meses depois.


Alaor Tristante Júnior


ilustração: "Harlequin family" de Pablo Picasso

13 novembro 2011

O PALCO















Como é lindo e limpo
        o cemitério
   no dia de Finados


flores variadas cores 
à sombra das árvores
o espelho das covas
silencia o futuro


ou serão das frutas
o perfume das fotos
renascidas do útero
fecundo das lágrimas?


mas o ano é longo
e a realidade curta
       24 horas
os mortos dos vivos.


Alaor Tristante Júnior

05 novembro 2011

POESIA de URGÊNCIA




















           
         Para que serve
             a reflexão
     sobre o fazer poético
             quando
     meu corpo fede
     mãos piedosas pedem
     membros se agigantam
     filhos trêmulos
     cabeças de cérebro


perguntas se calam
diante da fome
de carne viva e morta
a apodrecer e apodrecendo
          é preciso
  comer comer comer


         Roçzeiral ex vano
            eu quero logo
             o logro real
            dos sentidos
    a vida que me dá direitos
           morto não sou
                 já fui
         existo para o fim
              dos meios


   Fazer poesia é gozar na cara
            na própria cara
        enquanto não chega
            ser fotografado
              para o fugaz
                  eterno


               O mundo?
         é viver numa pedra
            chamada Terra.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Os retirantes" de Cândido Portinari

01 novembro 2011

O ALÉM-DO-HOMEM






















Quando não houver mais espelhos
cada rosto será a morte
enredada por entre os dedos
de sombras frias em desordem.


Rabiscos de diversas cores
estradas de olhos opacos
no vão dos neurônios valores
fios teclas memórias no vácuo.


O vórtice cinza do amor
de sonhos e mágoas do homem
nos metálicos chips sem nomes


saudades num mundo sem dor
quando as alegrias e dramas
serão conflitos de programas.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: pintura de Jean Michel Basquiat

30 outubro 2011

IDEOLOGIA

















             
           Quanto mais penso
                  no Poder
            chego sempre ao
                  arbitrário


então descanso
nas formas ideais
na dureza dos fatos
no imponderável
do cotidiano
procuro morrer
     de viver
a morte do pensamento
enquanto águas de sangue
me afogam no imaginário.


Da liberdade
             só nos resta
                           mastigá-la


            impermeável
            antes de tudo
             sustentá-la
            como a folha
     de uma grande árvore


              e a árvore
    perante todas as árvores
        e todas as árvores
              aleatórias
        frente ao universo
               do infinito
                 de tudo
              que é nada.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: A execução de Maximiliano - 1867 - Edouard Manet



22 outubro 2011

DUALIDADE

















Quem sou eu?
           habitante deste corpo
frágil
            prazo de validade
                em segredo
             que me carrega
                 autoritário


escravo
           às vezes
                       dou-lhe o troco
digo pare
levante-se
dance uma valsa


                Mas quem sou eu?
                inventor de mundos
                viajante estrelar
sucumbo
                           à unha encravada


                parasita fiel
                desconheço
                outro corpo


mais moço
mais belo
com pernas
                  para um chute
mais potente


                futura vítima
                 deste algoz
                  assassino
                 impiedoso
                   de mim


Será eu?
            ao contrário
explorador
de peles bocas dedos olhos
            cérebro
até reduzi-los a
                            ossos
           quando serei
                apenas
                          versos


                   Eu?
           Quem sou eu?
              que pensa
           neste efêmero
                 corpo
               andante?


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Aula de anatomia do Dr. Tulp" - (1632) - Rembrandt

13 outubro 2011

TRANSIÇÃO






















Adeus ao riso
nascia triste na boca
o primeiro siso


alaorpoeta


Ilustração: "Puberdade" - Edvard Munch

12 outubro 2011

BODE EXPIATÓRIO





















Bandidos de gravata
toga farda óculos
chapéu batina


bandidos de luxo
capacete gabinete
pés de chinelo


calaram a boca...


o escuso foi preso
parecia Jesus
pelado na praça


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Dante e Virgílio no Inferno" - Willian-Adolphe Bolguereau

09 outubro 2011

VISÃO DE UM CACHORRO FELIZ






















Cheguei ao vazio e pus-me solitário
banindo qualquer intenção do nada
o dia flui e a noite abre as pernas
cálidas feridas em preto e branco.


Rasguei cavernas grotescas de sexo
fundo engolfei famílias de paixões
suguei a pintura do arco-íris
e me fiz estátua de cemitério.


Das ilusões passadas na montanha
guardei o ar reprimido do peito
tentáculos de flores e perfumes
a vida faz de conta entre dois túneis.


Porque desde o início fui máquina
o pensamento a serviço da dor
pintei meu tempo com olhos daltônicos
guspi nas trevas a luz que me falta.


Sede não sinto sou água de poço
se tenho fome procuro uma língua
que se faça entender pelo cifrão
uso meu bolso e me chamam Doutor.


Tenho vergonha da felicidade!
queria apanhar o sol com as unhas
na guerra fuçar sobre chão minado
gostava mesmo que o mundo acabasse.


Na reconstrução da minha história
sem pet shop meus pelos compridos
fétido voltaria a ser um lobo
selvagem no espelho da dignidade.


Alaor Tristante Júnior


ilustração: "Velho guitarrista cego" - Pablo Picasso

FALSIDADE IDEOLÓGICA

















O rei vai de iate
entre pompas e a popa
canta Jesus Cristo


alaorpoeta

08 outubro 2011

29 setembro 2011

FLORES DA VERGONHA






















Buracos negros de silêncio
de formas ausentes são pedras
entre postes a ponte pênsil
no vazio de sombras incrédulas.


O céu misturado ao chão
sem vida jaz saudosa chuva
rasteja em busca do perdão
do morto arco-íris: viúva.


Desabrigadas de sentidos
vestígios de mundos ruídos
vermelhas flores solitárias


como a zombar dos fracassados
atravessam pisos minados
e anormais nascem de cesáreas.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: pintura de Adalberto Francisco Tristante

25 junho 2011

CONCUPISCÊNCIA

























Há um céu retrato de chão
no abismo de nossos desejos
um palpitar sôfrego em vão
e uma língua oculta em beijos.


Orifícios copulam mastros
guerras se entrelaçam em camas
entre castos e mundos vastos
a carne se aviva em chamas.


Pensar que é a vida senão
prazer de cada tentação
enlevos do próprio calvário


concúbitos entre cajados
filas de buracos cavados
o sol germinando do armário.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "A tentação de Santo Antão" - Hieronymus Bosch

30 maio 2011

ONIPOTÊNCIA

























Quando criança brincávamos
de ser gente importante
do mundo dos adultos.
Um dia fui Deus...
Enquanto José erguia cidades
Maria trocava fraldas
eu abobalhava uma formiga
numa caixa de fósforos redonda
azul vista do espaço
e dizia: - Comece a rezar!
Deixava um curto escape
de liberdade. Mas advertia:
- Só quando eu quiser!
Então a formiga, sempre,
porque era formiga
e não sabia o que fazia
desafiava pelo orifício
seu cérebro de saudade
e com olhos de finitude
lograva a consciência
na guilhotina de Deus.
Nunca entendi o despropósito
daqueles seres ínfimos
a corroer minhas dúvidas
porque jamais me deixaram
brincar de ser formiga.
Quando cresci
virei formiga de verdade.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: pintura de Willian Blake

22 maio 2011

PASSAGEIROS EM TRÂNSITO















Partíamos a destinos disformes
sombras etéreas de fátuos momentos
olhos ausentes vagando uniformes
o silêncio aflito dos pensamentos.


Peles multicores feitas de roupas
secretas coxas estirpes gravatas
borboletas cobras veladas bocas
e o céu metálico nas mãos fumaça.


Fixávamos suaves miragens
no átimo da infância livres bagagens
o último adeus do sabor das almas


a fila móvel nos pontos amargos
quando corpos doentes dos encargos
acolhem outras formas bem mais calmas.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "El Camión" (1929) - Frida Kahlo

19 maio 2011

GOLES EXTREMUS





























O sumo cálice transborda
e limpa formas adiposas
róseas faces náuseas bordas
sonsas famílias nebulosas.


O mijo pueril engole
o gole senil de quem viu
séculos de desprezo à prole
ébrios no consumo febril.


Entre olhares vagos vulgares
velando castrados os lares
louvadas as últimas taças


sob céus de chumbo impávidos
de rubro chão e mundos grávidos
do estupro de todas as raças.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Bacchus" - Peter Paul Rubens

14 maio 2011

GENEZÍRIUS HUMANUS
























Era uma vez ideais árvores
mil infinitas cores frutos
raízes débeis sonhos mármores
nutrindo sombra os cocô-rutos


lagartas farinavam cócegas
grávidas bobasletras-leques
cigarras fumegavam trócegas
entre um poema vários cheques


tudo começou com um sim
molécula a outras mulhéculas
penso existo logo dindim


houve récuas tréplicas féculas
da pré-história à palavrória
e havia o nunca e havia o sim.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "A árvore de amora" (1889) - Vincent Van Gogh

09 maio 2011

ESTUPOR


















Jaz sempre chegando.
Estagnar-se nas formas
que as duras pedras
fazem da gente:
soldados de retrato
salvos pelo flash.
Numa única lágrima
represado fôlego
interesses escusos
compromissos inadiáveis
boletos em trânsito
fantasmas insepultos
da inútil Metrópole
mas com dentes de ouro
chegando... chegando...


Oh! Seria bom partir
fecundar as fotos
fatos fogos feras
espermatozoide incauto
a mundos nascituros
órbitas sem núcleos
imprevistos gozos
nas possibilidades múltiplas
do útero infecundo.
Vivê-los intensamente
no futuro sem origem
rebento abandonado
do presente absoluto
partindo... partindo...


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: poeta Arthur Rimbaud

07 maio 2011

DUAS MÃES


























Dois cidadãos
filhos
da mesma cidade:
o X e o Y
X é pobre
Y é rico
valor de X:
um terço de Y
valor de Y:
3X
o Y forja o progresso
o X é invisível.


Dois filhos
do mesmo ventre:
o X e o Y:
X igual a Y
elevado ao
amor irrestrito 
de uma MÃE!


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Mãe com seus dois filhos" - William-Adolphe Bouguereau

04 maio 2011

NEGÓCIO DA CHINA























É uma grande empresa
de lavanderia
há séculos no ramo.
Seus donos originários
investiram na angústia
das sujeiras...
De capital
dizimamente
aberto nos sonhos
fechado
na contabilidade
cresceu infinitamente...
Ali não só
roupas sujas
são lavadas
mas narizes
bocas orelhas olhos peles
genitálias
e principalmente
o cérebro
tudo em nome
de JE$U$
O Límpido!
Os eternos clientes
se assoam coletivamente
mas almejam sempre
a limpeza egoísta
da individualidade
chave única
para a dignidade
do merecimento
do último modelo
conversível
da Chevrolet.
Os donos do sabão
executivos da empresa
colarinhos branquíssimos
sorriso colgate
sem remorso
almas lavadas
santificaram
dois jatinhos
nos quais gozam
pelos ares
o grande sucesso
da corrente
dos empresários
tudo em nome
de JE$U$
O Límpido!


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Crucificação" (1515) - Matthias Grünewald

01 maio 2011

GÊNESE PÓS-APOCALIPSE



















O último homem
atravessou a corda
bamba
da humanidade
soluçando
a linha do tempo
de uma nova ordem
e se fazendo
o Além do Homem.


A memória
foi reinventada
como flores de aço
nascidas no buraco
branco espúrio
dos vagos espaços
se fez também o rio
após grosso dilúvio
de sonhos azuis.


Sentindo-se só
arrancou do anverso
do peito ofegante
uma débil costela
comendo com gosto
dando-lhe pernas
numa junção de coxas
e cinco corações
sentidos
num mesmo ventre
orgasmos múltiplos
dos seios comprados
para amá-lo
eternamente
adjutora.


Funcionário Público
viu que isso
era bom
e já descansou
no segundo dia.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: filósofo  Friedrich Nietzsche

30 abril 2011

MORTE EM CENA























O chato da vida
morrer antes que as cortinas
sejam abaixadas


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "A morte de Marat" (1793) - Jacques Louis David

MORAL DA HISTÓRIA...





















Em vida foi santa
depravou a virgindade
na festa dos vermes


Alaor Tristante Júnior

EXEMPLO DE VIDA




















As putas comprovam
ser humano é padecer
o prazer da angústia


Alaor Tristante Júnior

NO MOTEL...



















Solidão a dois
é quando as camas só gemem
no quarto ao lado


alaorpoeta


Ilustração: "Só a solidão é solitária e feminina" (1996) - João Luiz  Costa


28 abril 2011

POETA



















Semelhante ao
pássaro drogado
no silêncio negro
de fumaça e pó
também o poeta
alimenta-se 
de recaídas.


Aos vinte anos
muitos são poetas,
aos trinta, os muitos
tornam-se máscaras
capitalizadas 
e estão curados...
aos quarenta, restam
os terminais
molambentos da
condição humana.


Arrastam-se nus
sobre chão de vidros
em busca da cura
do último trauma
ou do inferno que
lhes arranque logo
o incompatível
corpo já sem alma.


Alaor Tristante Júnior

26 abril 2011

A GUERRA















Mataram o nº 2, antes, calaram o nº 3,
e o nº 1 armou outro nº 2 e o nº 3 e o nº 4...
morto o nº 1, do incêndio sobreveio uma névoa,
mas o nº 0, então desconhecido, converteu-se no nº 1.


Foi aí que a santíssima guerra virou matemática
fracionária entre complexos, ordinários e infinitos.
Maioria otimista, todos os positivos foram mortos
trapaceados pela neutralidade dos ascendentes negativos.


A dízima periódica composta permeou cada alma
humana das potências elevadas ao cúmulo
ordinariamente enrustidas nos armários quânticos
dos coletivos e multiplicativos do apocalipse.


Alaor Tristante Júnior

25 abril 2011

PROJEÇÃO DE UMA VIDA CAPITALISTA















Sonho projeto de sonhos
cada passo um novo sonho
para a vontade dos sonhos
encher a vida de sonhos.


Enquanto isso se nasce
sem sentido além do sonho
de chegar ao fim dos sonhos
pai eterno dos sonhos.


O sonho maior dos sonhos
comprar o próximo sonho
nunca parar de sonhar
o sonho filho dos sonhos.


Até que a hora da carne
cicatrizada de sonhos
a benefício dos sonhos
morre para um outro sonho.


Alaor Tristante Júnior

23 abril 2011

CAMINHOS ABSOLUTOS




















Viver é uma arte
de emprestar tempo ao tempo
nunca devolvido


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "O tempo" - Salvador Dali

21 abril 2011

BEM-VINDA SENHORITA VOLÚPIA

















O ato sexual
é o único 
momento
em que me sinto
vivo
todos os demais
momentos
são tentativas
de viver.


Por isso 
não entendo
tanta culpa
tanto freio
tanto drama
quando se trata
da própria razão
de viver:
produzir cópias.


O sexo deveria ser
como ir a um restaurante.


As pessoas deveriam
se dar mais
pelo simples prazer
de se dar
sem expiações
remorso
pudor
convenções
e traumas.


O amor é outra coisa
às vezes se encontram
mas usa máscaras
tem facetas
métodos
é só mais uma
invenção
na tentativa de viver.


Vivo mesmo
quando o sangue ferve
os olhos viram
e me sinto
o mais poderoso
dos animais.


Mas a brevidade
a humanidade
e logo
a consciência
maldita
estúpida
me diz
sou tão pequeno
na tentativa de viver.


(Quando o sexo
acaba
a vida está
por um fio!)


Alaor Tristante Júnior



19 abril 2011