ALAORPOETA

ALAORPOETA

28 novembro 2010

FORA DO TEMPO

























Há tempo perdi a vontade do meu tempo!
Ando à esparavela e pressinto o movimento
do sopro do vento na face o passatempo
capenga de quem abandonou o argumento.


Por que cogitar que sou senhor dos meus versos,
dos meus livros, meus filhos, meu juízo, meus...
incertos abrir e fechar olhos imersos
na alvorada fugaz se escondendo do adeus.


Estou-me nas tintas para ladrar à lua
como o sono de morte do mendigo na rua
pouco me importa estancar ou não a goteira.


Há tempo perdi a vontade do meu tempo!
Quem quiser obrar que vá eu paro e contemplo
na estrada das almas vou ficando poeira.


Alaor Tristante Júnior

26 novembro 2010

A UM EMPRESÁRIO (in memoriam)
















Toda trajetória:
pálpebra caída
no ânus da glória:
auspícia jazida.


Escravo e patrão:
desirmão apreço
mas na extinção
o mesmo endereço.


Lia poucos livros
porque era pavão
refeito carnívoro
passava o facão.


Bofar de opulência
empáfia visão
na beneficência
migalhas de pão.


No império dos homens
nutriu os inermes,
agora, só nome,
alimento dos vermes.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: cena final do filme Teorema (1968) de Pier Paolo Pasolini com o ator Massimo Girotti

15 novembro 2010

PROPAGANDA DO FUTURO



Quem não tem chip
chispa!
Dá meia-lua
não se arrisca
ra-re-ri-ro-rua!


Não deixe seu
cérebro
andar para trás
implante o melhor:
Chip "Maxidécor"
todo soldado 
vira major.


Morte ao chip
1.0, 3.0, 7.0
mulher feia
trisca na ripa
pega faísca
vira odalisca
10.0 "Maxidécor":


Oito idiomas
mapa de Roma
trezentos livros
(Bíblia não inclusa
pois pode danificar
seu chip)
dizáiner moderno
num clic decida
moça, gay ou macho
carnívoro ou
herbívoro
reversão rápida.


Cinco profissões:
- advogado
(vade-mécum
atualizado)
- médico
(últimas pesquisas)
- cozinheiro
(receitas de Ofélia)
- motorista
(especial "X"
naves siderais)
- palhaço
(risos anexos).


Preço módico!
Aos vinte primeiros
que plugarem
levam inteiramente
grátis
fórmula da paixão
seja o campeão!
Vergalho mixo?
Seja Kid-Bengala
20% maior
com chip "Maxidécor"
quem não tem chip
chispa!


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Pessimismo e Otimismo" (1923) - Giacomo Balla

VERBO FUTURO DO PRETÉRITO



















Vê do banco da praça, ardente humanidade,
mira o vagabundo que desdenha da pressa,
se o tempo escraviza os rostos da cidade,
para alguns passa lento, triste e sem promessa.


Impassível, o olhar tenta achar um sentido
na gravata do homem, na feição sisuda
da mulher que caminha no palco fingido
como quem vai à forca e precisa de ajuda.


Como o instinto canino, o homem também, drástico,
tem o seu lado Deus e o seu lado de Cão,
corre como quem voasse aos confins do máximo,
mas procria, se ilude e morre rente ao chão.


A tez branca Divina há mais de vinte séculos
sob a sombra de Cristo, agoura represália
e mente impunemente abestalhando os séquitos
enquanto o Poder goza no cu da gentalha.


Mas o batalhador moderno é muito mais
do que só esbulhado, arrancam seus miolos,
reduzem-no a idiota, cargueiro do cais
da vida, sisifando infinitos tijolos.


Poetastros, líteros, mais quantificadores
de livros, liras, lírios, bons para as latrinas,
em Academias cotovelando dores,
são burgos cegos aos inversos das cortinas.


O fecho do homem nos chips implantados
no cérebro, capaz de recitar os cantos
irrestritos do mundo nos bilhões de dados,
quando se nascerá sabendo os desencantos.


Homem! O teu progresso das grandes cidades,
tua essência e caprichos de metal serão
a zênite epopeica das futilidades
no gozo final da tua rica extinção.


Busca o sonho maior de esquecer o futuro,
fruto de mágoas, seja na angústia possível
ou na atroz felicidade do brilho escuro,
bebe da porra-louca o antídoto sensível.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Apocalipse" (1964) - Guilherme de Faria