ALAORPOETA

ALAORPOETA

16 setembro 2010

DETALHE...

















De repente um corpo
e a noite ficou sem brilho
vaga-lume morto


Alaor Tristante Júnior

11 setembro 2010

ATITUDE

























Ensinaram-me
desde pequeno
que eu era
um trem
sobre trilhos
e que a cada
estação
tinha de pagar
um preço
escovar os dentes
bater continência
estudar... estudar...
depois já grande
fabricar um lar
trabalhar... trabalhar...

Tudo tão certinho
vaguei pelos vagões
passo a passo
cabeça de homem
pouco fui menino
mas a grande
sensação
foi numa tarde
descarrilhei
virei passarinho
voei bem alto
sem destino
descobri
que havia outros
caminhos...

alaorpoeta

PEDINDO APOIO















Mesa tem pé
corpo tem pé
pé de couve
pé de café

pé ante pé
na ponta do pé
quem tem pé
dá no pé

pega no pé
bate o pé
cai de pé

ao pé da letra
a vida dá pé
apesar do chulé.


alaorpoeta

DINHEIRO















Dinheiro vai
dinheiro vem
passa por mim
sorri e se esvai

dinheiro chega
mal chega parte
passa por mim
e faz-me um mártir

dinheiro excita
bem longe saltita
retira-me a calma

dinheiro maldito
engulo e vomito
devora minha alma.

alaorpoeta

10 setembro 2010

SONETO DA CÓPULA, GOZOS E COITOS...



















Há uma fera capciosa em mim
que de quando em quando é amansada
que frequentemente bem mais ousada
retorna desejosa e mais a fim.

Tem gente que a chama sem-vergonhice
minha puta me chama troglodita
mas com a fera não tem pieguice
some num ímpeto e como tal ressuscita.

Seus gestos loucos são sempre incontidos
cega por inteira não dá ouvidos
sobrevém sorrateira e cospe fogo.

Deixando-me abstraído após o logro
feições de bobo e com cara de pau
faz-me crer que sou mesmo um animal.

Alaor Tristante Júnior


09 setembro 2010

VIDA...























Ó vida que passa
que vejo que passa
às vezes tão rápida
às vezes nem passa
tão lenta tão nada
com jeito de inapta
suspiros de amada
por sonho se basta
por vezes tão fraca
não passa perpassa
transpassa sem graça
uma estátua estática
me cospe maltrata
me cala me bate
não sabe descabe
a vida que passa
que nunca me olha
que agora e outrora
minha vida ignora
me larga eu choro
absolvo e devoro
não bebo sem cloro
existo e emboloro
ó vida que passa
que vejo que passa
mas nunca revela
me larga sem vela
lascivo no escuro
sem olhos e mudo
uma vida do mundo
mais uma no mundo
ó vida que quero
e às vezes renego
ó vida que passa
se a amo ou condeno
só ela que tenho.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Um par de sapatos" - Vincent Van Gogh

07 setembro 2010

UM CAUSO: CHAPELÃO PRETO

 

Foi há muito tempo atrás,
tudo isso era mato,
não tinha televisão,
cinema era só boato, 

criações e criaturas
da assustada mente humana
assombravam muita gente
nas florestas e choupanas.

Orquicêncio dos Gonçalves,
belo e jovem lavrador,
na Fazenda Água Branca,
para ver seu grande amor,
Tereza Cápua, a mais bela
das moçoilas do sertão,
caminhava três mil metros
entre a mata e o varjão.

Quanta inveja e olho gordo
causava aquele romance
que num dia sexta-feira
à meia-noite minguante
resolveram em Orquicêncio
aplicar uma lição
que no caminho da volta
existia assombração.

Enquanto alguns o assustavam
falando de alma penada
outros de capuzes pretos
o esperavam na estrada,
quem ali não tinha medo
do monstro Chapelão Preto
que esmagava de porrete
e tinha dedos de espeto.

Tantas histórias contaram,
Orquicêncio se abalou,
mudou seu rumo na volta
e um temporal desabou,
chuvas, raios e trovões
devastaram a escuridão,
Orquicêncio tremeu todo
quando viu o Chapelão.

Zelou para não chorar,
mas realmente chorou,
enquanto o Chapelão Preto
bem no caminho parou...
percebeu que a solução
era enfrentar o danado
e se atirou como louco,
os olhos quase fechados.

Foi uma luta sangrenta,
invadiu a madrugada,
Orquicêncio esmurrava
e levava porretadas,
foi quando acertou em cheio
a cuca do Chapelão,
decepando os seus braços
na ponta do seu facão.

Quando se viu vencedor,
correu sem olhar pra trás,
pela manhã, a façanha,
quis exibir aos seus pais,
chamaram na vila o padre
e também veio o coveiro
para enterrar um coitado...
pobre pé de mamoeiro.

Alaor Tristante Júnior


06 setembro 2010

FATAL

























A tarde morreu
na noite que já temia
outra madrugada

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura de Salvador Dali

04 setembro 2010

TRAJETÓRIA...

























Quando criança
era o pai, a mãe,
ficava de castigo
porque era feliz.
Conheceu Deus
nunca mais sorriu...
ficou intrigada.
Quando jovem
eram os hormônios
a opressão do instinto
as incertezas
de um mundo
esquisito.
Perdeu a cabeça
alienada
virou marionete
dos amigos, da internet
e da sociedade.
De repente
faltou-lhe um truque
e estava casada.
Sossegou o facho
mas o príncipe
era um sapo
e lá se foram
todos os sonhos.
Separada
não foi libertada
restaram-lhe os filhos
a via-sacra
advogado-fórum-
oficial de justiça
a luta inglória pela
pensão alimentícia.
Num belo dia
quando acordou
encontrou a velhice
morando no espelho
e com ela vieram
todas as dores.
Foi à igreja
rezou muito
mas descobriu
que o Senhor
desde o início
era surdo
embora seu dono.
Finalmente
verme com verme
a liberdade
de não existir.
Num mesmo instante
morreram todos
ela, Deus e as dores.
Neste ínterim
a sua filha
já estava casada
com um príncipe-sapo.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Mulher cão" - Paula Rego

EU E LEMINSKI



Não adquiro bens
se a vida é uma viagem
tô só de passagem

Alaor Tristante Júnior

CONSUMISMO



O meu calendário
é por contas a vencer
azar do salário

alaorpoeta

03 setembro 2010

INTERMITÊNCIAS
























Acordei feliz
a vida entrou
pela janela
saiu pela porta
volte vida!
entrava pela porta
saía pela janela
muito tímida
estranha vida
entrava e saía...
cada vez que entrava
cada vez que saía
eu me transformava
ó vida parva
acordei feliz!

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Mulher na janela" - Salvador Dali