ALAORPOETA

ALAORPOETA

15 novembro 2010

VERBO FUTURO DO PRETÉRITO



















Vê do banco da praça, ardente humanidade,
mira o vagabundo que desdenha da pressa,
se o tempo escraviza os rostos da cidade,
para alguns passa lento, triste e sem promessa.


Impassível, o olhar tenta achar um sentido
na gravata do homem, na feição sisuda
da mulher que caminha no palco fingido
como quem vai à forca e precisa de ajuda.


Como o instinto canino, o homem também, drástico,
tem o seu lado Deus e o seu lado de Cão,
corre como quem voasse aos confins do máximo,
mas procria, se ilude e morre rente ao chão.


A tez branca Divina há mais de vinte séculos
sob a sombra de Cristo, agoura represália
e mente impunemente abestalhando os séquitos
enquanto o Poder goza no cu da gentalha.


Mas o batalhador moderno é muito mais
do que só esbulhado, arrancam seus miolos,
reduzem-no a idiota, cargueiro do cais
da vida, sisifando infinitos tijolos.


Poetastros, líteros, mais quantificadores
de livros, liras, lírios, bons para as latrinas,
em Academias cotovelando dores,
são burgos cegos aos inversos das cortinas.


O fecho do homem nos chips implantados
no cérebro, capaz de recitar os cantos
irrestritos do mundo nos bilhões de dados,
quando se nascerá sabendo os desencantos.


Homem! O teu progresso das grandes cidades,
tua essência e caprichos de metal serão
a zênite epopeica das futilidades
no gozo final da tua rica extinção.


Busca o sonho maior de esquecer o futuro,
fruto de mágoas, seja na angústia possível
ou na atroz felicidade do brilho escuro,
bebe da porra-louca o antídoto sensível.


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Apocalipse" (1964) - Guilherme de Faria

6 comentários:

  1. Iiiiiiiiiiiiiii huuuuuuuuuuuuu!
    Poesia pra mais de metro, meu caro, bastante caro!
    Antídoto - próprio veneno.
    Gosto dos seus poemas, da sua linguagem madura e provocadora.

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  2. Sensacional meu amigo, como disse nosa amiga Rita, poema pra mais de metro. Tamém gosto da lnguage que vc usa. Parabéns, lindo poema. Abrção. Marcelo Moreira Marques.

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  3. Alaor, não posso evitar repetir o que é notável. Seu estilo e muito maduro e genuíno. Violento na medida certa e às vezes que passa um pouco da conta. Essa é a poesia que me prende. Enquanto eu gargalho da futilidade dos homens e sua crença cega na ciência choro de pesar o homem que morre de fome e o gozo final de deixar de existir depois de tanta exploração. Poesia para instigar e ser lida e relida. Você é muito bom mesmo, meu caro. Gostei muito de seu blog.

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  4. Alaor, teu poema "de mais de metro",foi lido por mim mais de uma vez. Mentalmente o dividi em mais de um (para meu exclusivo entendimento). O primeiro ocupou, a mim, as três primeiras estrofes, completando sentido. A 4ª estrofe encontra, em mim, resistência, não sou suficientemente moderna e sem peias... Contudo não posso deixar de admirar a figura da sombra de Jesus, mais seguido e adorado que a pessoa do Pai. As 3 seguintes me mostram a obra sempre recomeçada do labor humano, a vaidade dos fazedores de livros(como eu também ... carapuça de bom tamanho)E toda vaidade é Vã, pois não? No Futuro do Pretérito, que no meu tempo de estudante se chamava Condicinal, pois dependia das condições a serem encontradas,- Eu compreenderia!- Finalmente as duas últimas que eu -para mim- denomino Exortação a viver-se o presente... Cumprimentos ao autor. Ab. Maria Luzia

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  5. muito bom essa poesia eu acho que foi a melhor que eu já vi em toda mina vida

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    1. Obrigado, Anônimo. Poderia ter deixado seu nome, para que eu pudesse interagir nossos sentimentos poéticos de forma mais personalizada. Um grande abraço. Alaor Tristante Júnior.

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