ALAORPOETA

ALAORPOETA

21 dezembro 2009

ENCONTRO














Olhei o abismo
o abismo olhou para mim
fiquei abismado

alaorpoeta



Ilustração: "Melancolia" de Edvard Munch

13 dezembro 2009

LÓGICA DIALÉTICA



Só para ser vista
flutua na escuridão
estrela exibida

alaorpoeta

SONETO DA PALAVRA SEM FLOR















Neste momento de silêncio
já não ouço palavras
só as penso, caladas,
levadas ao vento.

Falaria sem dúvida
tanta coisa escondida
tanta coisa perdida
tanta coisa da vida.

Mas o silêncio da voz
deixa o grito da mente
cada minuto mais só.

E assim se faz pó
a palavra que calo
só penso e não falo.

alaorpoeta

PERANTE A NATUREZA NÃO HÁ DISTINÇÃO
















Gente boa que vive...
Gente boa que morre...
Gente boa em declive...
Gente boa com fome...

Gente má que vive...
Gente má que morre...
Gente má em declive...
Gente má com fome...

E o homem vagamente
prisioneiro da vida
caminha impotente...

Por entre pálida vidraça
morte louca sem graça
vida boba que passa...

alaorpoeta

05 dezembro 2009

RECUSADO




















Na hora da morte
a esse Deus sempre oculto
pediu um milagre...

alaorpoeta


Ilustração: "Retrato do Dr. Gachet" (1890) - Vincent Van Gogh

19 novembro 2009

REMINISCÊNCIAS!




















Quando criança eu era eterno
meu mundo era todos os mundos
e por só conhecer minha rua
passear no centro da cidade
era alcançar o universo.

Na verdade não tinha sonhos
porque eu era meu próprio sonho
e o mundo girava para mim.

O único rei era meu pai
mas perante mim fraquejava
então o fazia meu escravo
de todos os caprichos que eram muitos
e o limite do nada era sempre tudo.

O passado não existia
porque passado um minuto
todo passado era banal
e o futuro eu nunca via
porque o presente me bastava
principalmente no Natal.

Quando criança eu era eterno
meu mundo era todos os mundos
não havia limites entre o céu e a terra
todos comiam na minha mão
porque eu sei que naquele tempo
eu morava em cada coração.

Hoje me recordo com saudade
do tempo que amei e fui amado
quando não conhecia solidão
mas não a solidão de estar sozinho
minha solidão é de mim mesmo
desta sombra vagando a esmo
entre caminhos que lá se vão!

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: foto do poeta nos primeiros meses de vida

21 outubro 2009

SOBRE A POLÊMICA DO ASFALTO















Quem reclama asfalto
está escravo do carro
tem pés sobre rodas.

Não desejo asfalto
quero a poeira e o barro
os meus pés descalços.

alaorpoeta




Ilustração: Abaporu (1928) - Tarsila do Amaral

20 outubro 2009

01 outubro 2009

UM NOVO DIA NASCEU...














Juventude:
cada dia
como se fosse o último.

Maturidade:
cada dia 

o início do fim.

Tem diferença
não tem importância
um novo dia nasceu...

alaorpoeta



Ilustração: pintura de Robert Duncan

21 setembro 2009

ADESIVO NUM CARRO













"SÓ PRÁ CRISTO"

decerto soprou
porque o carro capotou


Alaor Tristante Júnior

ilustração: imagem do Google

20 setembro 2009

FINALIDADE



Acredito
escrever
é gratuito

alaorpoeta

PASSEIO NO CALÇADÃO



Alegria do povo
o centro abriu as fronteiras
para a periferia

é povo pra todo lado
não há coisa que não queira
entusiasmado

escolhe... escolhe
compra todas as vitrines
com o poder dos olhos

contornos e passadas
antes do retorno
um caldo de cana apenas

sacola de sonhos
suponho que valeu a pena
pela caminhada.

alaorpoeta

19 setembro 2009

A HORA É AGORA...























"Quem monta um tigre
não pode apear"

vida vivê-la vida
intensamente
cada momento
é um tigre

o sentido da vida
é a própria vida
viva a vida sem medo
cada chance
cada tigre
é um gatinho

na minha vida
montei muitos tigres
sempre desmontei
covarde

fui encarado
abocanhado
pisoteado
dilacerado

sobrevivi

ainda que manco
cego de um olho
e vesgo

hoje...
não há mais tigres
não se importam comigo
sumiram todos

não tenho mais forças para montá-los
ah! se eu não tivesse apeado!

Tigre, onde está
que não aparece?

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Worn out" (1882) - Vincent Van Gogh

17 setembro 2009

NÁUFRAGO...















Um sonho findo
um sonho vindo
não sei se rio
se é um córrego
vai recobrindo
estes meus olhos

pondo-me cego
quase sem lágrimas
tonto me entrego
refém das águas
cada suspiro
cada braçada
não sei se rio
se é um córrego
vai recobrindo
estes meus olhos

serão meus risos
ou minhas mágoas
nas correntezas
do sem saída
ou nas tristezas
do sem chegada
serão meus risos
ou minhas mágoas
nas incertezas
das gargalhadas

um sonho findo
um sonho vindo
não sei se rio
se é um córrego
vai recobrindo
estes meus olhos...

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Nufrágio" (1805) - Willian Turner

12 setembro 2009

AMOR GOZADO!
























Olha a prostituta
sempre seminua
que se diz matreira
faz ponto na rua
se dá por inteira
a todos que queiram
fungar o seu cheiro
por pouco dinheiro
por muita besteira:
- Posso até gozar!
Enquanto labuta
na beira da cama
no fundo do mato
em banco de carro:
- Posso até sonhar!
Não é muito linda
mas dá boas-vindas
a todos que passam
aos que a entrelaçam
aos que a escorraçam
sobe um triz a saia
mostra sua coxa
convida à gandaia
a cópula ensaia
e numa voz chocha:
- Posso até voar!
Chiclete na boca
camisa na bolsa
se diz muito louca
perversa do mundo
no mundo perdida
mas quando da transa
aí que desanda
se desfaz da franja
rebenta a miçanga
e mostra sua arte
que até já matou
um freguês de enfarte:
- Sou capaz de amar!

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Prostituta" (1986) - Emmanuel Nery

CAMINHADA NA AVENIDA



O homem perdeu as pernas
o mundo pertence aos carros
os pirilampos metálicos


rumo à extinção
alienígena da rua
pedestre sem prumo


farol apagado
entre milhões de veículos
andar solitário.

Alaor Tristante Júnior




11 setembro 2009

O QUE É A VIDA?


















A vida é fogo
se o bombeiro aparecer
diga não estou



comentário de uma colega:


A vida é fogo
dependendo do bombeiro
eu digo me apaga


Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "O incêncio do parlamento" (1835) - Willian Turner 

10 setembro 2009

NA HORA H



















Ora... ora... o amor
perdoem-me os românticos
meu sexo é selvagem

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: Pintura de Sara Maia

09 setembro 2009

SOBRE A AMIZADE COM MULHERES



Minha vida revela
a única amiga que tive
num lapso comi ela

erro de gramática?
na vida mais vale a prática
comi até a costela

era muito gostosa
pedi bis... three... four
casei-me com ela

a partir de então
amigas nunca mais
pra não ter congestão.

Alaor Tristante Júnior

08 setembro 2009

07 setembro 2009

É PROIBIDO FALAR COM O MOTORISTA




















O jeito é gritar
ladrar em silêncio
pedir com os olhos
uivar com as mãos.

A boca calada
bocejar quem sabe
o chofer é sério
etéreo... etílico.

Além e aquém
existe um destino
um mundo de sonhos
estrada de gente.

Podemos rezar
o bolso agitar
de nada adianta
a marcha é constante.

No ônibus da vida
ninguém sabe a hora
o passageiro ideal
desce no ponto final.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura de Michelângelo

SURPRESA NO VELÓRIO!













Por um instante o morto se levantou
e espantosamente disse para todo mundo:
- Minha gente, não existe outro mundo!

Após o assombro quiseram saber detalhes
mas o morto se abaixou novamente
e sem mais palavras dormiu eternamente.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Cristo morto" (1521) - Hans Holbein

06 setembro 2009

TRANSMUTAÇÃO!




























"Tudo passa e nada fica"
já dizia o filósofo Heráclito
um sorriso eternidade não significa
pois nada por inteiro se calcifica.

É um sonho destruído e morto
outro sonho arquitetado e vivo
ao contrário do que se diz absorto
nada que nasce torto morre torto.

O tempo passa e tudo se modifica
tudo o que hoje é firme como rocha
amanhã se derrete se apaga como tocha.

Nada é eterno neste mundo fantasia
onde vemos coisas que não existem
onde existem coisas que não vemos.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura de Salvador Dali (1928)

04 setembro 2009

INSÔNIA




















Triste manhã
o dia brigou com a noite
ficou no escuro

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Os comedores de batatas" - Vincent Van Gogh

03 setembro 2009

POÇA D'ÁGUA

















Sou água parada
na estrada da vida
mas se eu pudesse
estaria voando...

O sol me castiga
ardente me chupa
bem perto do fim
a chuva me irriga.

Tornei-me cansada
a bem da verdade
queria ser levada
por uma enxurrada.

Perder-me de mim
em outros caminhos
quem sabe meu sonho
ser um passarinho...

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Pássaro da Liberdade" (1975) - Clarice Lispector

INTEMPESTIVO





















Cruzei o sinal
pintei e bordei o sete
caminho sem breque

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "A noite estrelada" - Vincent Van Gogh

02 setembro 2009

CRÍTICA
























Falou-me um crítico:
- Seu verso é bom,
mas falta dinamite!

Zás! Plaft! Plic! Bum!
Catapimba!
Explodi tudo.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura de Salvador Dali

EXERCÍCIO DE HUMILDADE





















Na vida
já fui chato.

Hoje,
sou redondo.

Caí do palco
saí rolando...

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura de J. Segrelles

01 setembro 2009

CARRO...
















As pernas pedem passagem
o coração sofre calado
mas o homem vai de carro
como rei em seu reinado

o filho reclama carinho
os livros dormem na estante
mas o homem lava o carro
como quem lava o amante

há uma união tão perfeita
que já não se sabe mais
quem é o homem quem é o carro

o homem vai de carro
até no dia da morte
o homem vai de carro...

Alaor Tristante Júnior

31 agosto 2009

29 agosto 2009

TEMPO...


















Olhei-me no espelho
quase não me conheci
espelho velho

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "O Espelho" (1936) - Paul Devaux

NO QUINTAL...





















A mamãe se agita
a vassoura vai na frente
amigas antigas

Alaor Tristante Júnior

MEDIOCRIDADE




















Se na vida eu tivesse
assumido a loucura
adormecida em mim
haveria de ter sido um gênio.

Mas preferi a mediocridade
à transcendência dos loucos.

Houve momentos de recaídas
ameacei revolucionar
senti que podia criar
cheguei a apalpar a vida bandida.

Mas amedrontado
abracei novamente o conforto
e no ápice das crises
apressava o meu trote
misturava-me à multidão
travava a mente
e ia fazer compras no shopping.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "O Medo" - Clarice Lispector

27 agosto 2009

DIA DE NATAL...


















Amanheceu
me levanto
abro a janela
chove lá fora
aqui dentro
o calendário
marca Natal...
será Natal
lá fora também?
Esperava uma festa
muitos abraços
rua repleta
pessoas sorrindo
crianças brincando
sol refletindo...
mas não há sol
só a chuva
que triste cai...
não pode ser Natal
somente aqui dentro
no meu calendário
tem que ser Natal
lá fora também...
através da janela
a rua é deserta
tudo tão quieto
será que esquecem
que hoje é Natal?
Onde está a alegria
o Papai Noel
as crianças sorrindo
exibindo felizes
na calçada
seus presentes?
Cadê todo mundo
meu pai
minha mãe
minha vó
meus primos
meus vizinhos
onde estão?
Chove lá fora
aqui dentro
o calendário
marca Natal...
por que será
que não é Natal
lá fora também?
Quando eu era
bem pequeno
nada era assim
tudo diferente
mais vivo
mais alegre...
quando acordava
meu presente
já estava nos pés
de minha cama
e ao meu lado
avistava sempre
minha mãe
sorrindo pra mim!
Hoje é Natal
eu sei que é
apesar da chuva
apesar do silêncio
mas só no calendário
na vida não
porque na vida
só há solidão!

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura de Walter Langley

CONGRUÊNCIAS


























Nunca ninguém está totalmente bem
nunca ninguém está totalmente mal
há de estar sempre relativamente bem
há de estar sempre relativamente mal

casar é incompreensível
celibatar é não ter gosto
ter filhos é tão possível
que não tê-los é um desgosto

até um fraco suspiro
na mais absurda ilusão
doença causada por vírus

é melhor que a solidão
como é difícil viver a dois
como é impossível viver só.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura de Rodolfo Barral

26 agosto 2009

O INVENTOR DE ILUSÕES























Não intento ser sozinho
mas desejo a solidão
se me chamam de ridículo
mais ridículo é meu vizinho
e se detesto ser mudo
deverasmente saúdo
toda densa escuridão
e se falo de minha alma
(aquela mesma de quem
desacredito e blasfemo)
é por um lapso histórico
pura força de expressão
de quem vomita nos dias
e alcança cada vã glória
por mera repetição...
vejo as pessoas nas ruas
e a única aspiração
é se transitassem nuas...
como isso é impossível
a viagem é sofrível
e meu Deus é insensível
então... tenho pena delas...
não das pessoas... das ruas...
das calçadas inventadas
e pisoteadas pelo homem
pelo bicho-homem...
tenho dó de cada roupa
cada luz no alto poste
e o cúmulo do meu dó
é ter pena até de Deus
(só pelo homem não sinto nada
só pelas putas mal amadas
e pelas bichas execradas)
mas são somente ilusões
creio até que as invenções
num estalo de pudor
se cansaram do inventor
o inventor de ilusões!

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Meditação" - Salvador Dali

O JORNAL DO DIA


























Jovem dá cavalo-de-pau!
Brasil pega Guiné-Bissau!
O salário virou mingau!
Até se arrepia o Cabral!

Todo veado alto-astral
que se preza por sinal
etc... e tal... tal...
tem coluna social.

Poetas fazem sarau
e numa estrada rural
no meio do matagal
há um crime sexual.

Para que serve o jornal
se meu time umbilical
que me deixa menstrual
só contém perna-de-pau.

Ora, para que serve o jornal
com seu distinto som matinal
sem aquela notícia imoral
de que mataram o lobo-mau.

Alaor Tristante Júnior

O TEMPLO DAS DÍVIDAS


















Por que nasci
pra pagar contas
conferir contas
receber contas
no fim das contas
por que nasci?

Passa meu tempo
passa o dinheiro
um homem fuma
ai quem me dera
se nesta hora
passasse a Luma.

Olho o infinito
cinza das ruas
vejo descalças
em desatino
vítimas nuas
almas que passam.

Corpos surrados
olhos cansados
querem viver
querem morrer
mas só conseguem
sobreviver.

Ai se eu pudesse
parar o tempo
o sobe-e-desce
das minhas horas
a dor de dentro
e a dor de fora.

E vou aos bancos
procuro um santo
e vou aos trancos
às vezes manco
aos quatro cantos
me desencanto.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Fugindo da Crítica" (1874) - Pere Borrell del Caso

25 agosto 2009

SER POETA


















De todos os chamativos
incisivos que me incutam
nem um só mais me fascina
quando me chamam poeta!

- Vejam o poeta!
- Lá vai o poeta!
- Coitado, é poeta!
- Diga-me poeta!

Olho, vou e digo
o peito estufado
sedento de afetos
e deixo aquele riso
muitos sonhos estrábicos
ainda mais perplexos
de quem não entende
que desde o primeiro
indeciso ultrassom
ser poeta é bom!

Garimpar beleza
buscar sutilezas
que as ocupações
profanas da vida
nos tiram tiranas!

Poesia nas cadeias
poesia nas escolas
nas teias de aranha
no poder que assanha
depois nos degola.

Poesia a cada passo
que um tombo evitou
por um breve sorriso
que uma vida salvou!

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: poeta Goethe (1787) - Johann Tischbein

ILUSÃO CAIPIRA




















Por que choras minha bela
por que tu queres partir
o sonho que te martela
que não te deixas dormir
não te mostras a mazela
e a incerteza do porvir.

Vai um pouco na janela
mira teus olhos no chão
quanto verde te revela
essa imagem do sertão
onde tu és a estrela
dentro do meu coração.

Lembra os beijos na cancela
nossos banhos na lagoa
aos domingos na capela
tu me chamavas de à-toa
e meus dedos sem cautela
ai Deus do céu me perdoa.

Agora queres partir
pensas muito na cidade
sei não posso te impedir
não tens mais felicidade
mas se algo te ferir
eu te espero com saudade.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "O violeiro" - Almeida Júnior


HUMANAMENTE HUMANO















Sou espermatozoide
esquizoide
mongoloide
asteroide
fascitoide
debiloide
sou Freud

só corro
do coro
no coro
e peço
socorro
no morro
do esporro

na zorra
gangorra
pachorra
Sodoma
Gomorra
masmorra
sou porra

que nojo!

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "O Desespero" (1845) - Gustave Courbert

SONETO DO FAZ DE CONTA

























Quando penso, desejo morrer,
mas da vida não acho saída
porque aprendi fingir de viver
e chamar a morte de querida.

Gozo e me amancebo com a princesa
e só não gozarei para sempre
pois de cada angústia sou amante
e sinto saudade da tristeza.

Então, mansamente vou blefando,
às vezes, linfático, sou bobo,
às vezes, vibrátil, sou malandro.

À espreita do derradeiro sopro
pasmo numa vida desleal
caminho rumo ao passo fatal.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "Juízo Final" - Michelângelo

SONETO DO ESQUECIMENTO















Vivo num eterno passatempo
como quem curte ser esquecido
e aprendeu ludibriar o tempo
e dele passar despercebido.

Sou à-toa e ateu daquele tipo
que já enterrou a identidade
e não aceita o tesão precípuo
dos que procuram felicidade.

Sou detalhe no livro da vida
e no palco da sina fingida
passo os meus dias no rodapé.

Bem-aventurados os sem fé
porque eles nunca serão lembrados
para o castigo nem para o agrado.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura de Edvar Munch

SOMBRAS QUE ME ACOMPANHAM
















Crer é saber
crer é viver
tenho que crer
tu tens que crer
temos que crer

creio na vida
creio na morte
creio no céu
creio no Cristo
papai-noel

creio no espírito
creio na mãe
creio no pai
creio na crítica
creio em político

crer é viver
crer é saber
que fui criado
pra ser criado
domesticado

por isso só creio
injeto na veia
fatídico enleio
do cômodo meio
de crer sem receio

não consumo a mente
estranho a razão
rezo de paixão
creio simplesmente
no meu coração...

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: pintura do artista belga Fernand Khnopff

MUNDO ANIMAL





















Sou um bicho-homem
sou um homem-bicho
da razão que se contradiz
e do animal que é feliz.

Não posso vislumbrar
um par de belas coxas
dois bicos de seios lindos
                               um bicho-mulher
                               uma mulher-bicho
              que incontinente
              mostro quem sou
                                             realmente
              um bicho-homem
                                    um homem-bicho.

Meu latim cai por terra
minha voz vocifera e berra
meu diploma vira esperma...
                 o sangue pula e ferve
                 os olhos alumiam
minha razão fica cega
o instinto me domina...
no império da vagina
sou Napoleão... sou verme
numa dor que não sossega.

Sou um bicho-homem
sou um homem-bicho
da razão que se contradiz
e do animal que é feliz.

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: caricatura de Charles Darwin (1871)

LIBERDADE













Bem no princípio fui crente:
Deus exibiu-me seus dentes.
Tolo, tornei-me agnóstico:
Deus revelou-se pernóstico.
Na ânsia de ser ateu
o fracasso Deus me deu.

Perseguido e maltratado,
deliberei, vou matá-lo,
que me importa o coração.

Aliei-me mortal
ao pensamento,
dei-lhe a gota fatal
do esquecimento.

Hoje, na paz me contive...
Sem pesadelos e sonhos...
Mas, sou livre?

Por Deus já não clamo
pra Deus não reclamo
sou um soldado
não sou escravo
uma vez por ano
lembro-me de Deus
no Dia de Finados!

Alaor Tristante Júnior



Ilustração: "A criação de Adão" - Michelângelo

24 agosto 2009

HAICAI NO ELEVADOR...



Clima de segredo
aquele odor de perfume
tem cheiro de peido



Alaor Tristante Júnior

CICATRIZ
























Quero ser
o sangue
que corre
e lambe
suas veias
e atentar
na dor
de seu rosto
e sentir
o gosto
(desgosto
que seja)
de jorrar
da ferida
incontida
desse
nosso
amor...
Em pingos
cair
no chão

fluir
livremente
e sorrir
ao vê-la
exangue
sumir
esquecida
nas amarras
do tempo...
E vagar
ser a água
ser o rio
e sonhar
que por fim
a deságua
é o mar...

Alaor Tristante Júnior

RECLAMAÇÕES NOSSAS DE CADA DIA















Por que reclamar da vida
se a vida não me conhece
e se conhece me esquece
por que reclamar da vida?

Por que reclamar da morte
se com ela ninguém pode
se não pode ninguém foge
por que reclamar da morte?

Por que reclamar de mim
se meu ato é redundância
se sou mera circunstância
por que reclamar de mim?

Por que reclamar das dívidas
se pagá-las não consigo
se só vejo meu umbigo
por que reclamar das dívidas?

Por que reclamarmos de Deus
se Deus há tempo tirou férias
e se as verdades são misérias
por que reclamarmos de Deus?

Por que reclamar do governo
se o governo não me escuta
e quando me escuta me insulta
por que reclamar do governo?

Por que reclamar de tudo
se o tudo é menos que o nada
e se o nada afinal valesse tudo
por que reclamar do tudo e do nada?





Alaor Tristante Júnior


Ilustração: "Guernica" (1937) - Pablo Picasso