ALAORPOETA

ALAORPOETA

19 outubro 2016

LEITURA





















Leio para não morrer antes da hora.
Quando a morte chega sempre me encontra
absorto na leitura. É minha manobra
para despistá-la e manter a delonga

de viver. Porque a morte também é leitora.
Vê o livro e se espicha toda curiosa
quer saber detalhes, o enredo, as pessoas,
mas o final digo que ainda demora.

- Passa amanhã! porque ninguém morre
antes de acabar o livro que está lendo.
Há chances de uma grande apoteose

vai que alguém lê o que estou escrevendo
um Prêmio Camões uma mega-sena
e quem vai fazer amor com a morena?!

Alaor Tristante Júnior

26 setembro 2015

COTIDIANO DA VIDA MOLE


























          Estou limitado ao norte
pela preguiça
             ao sul pelas partes baixas
                             do sexo
ao leste pela finitude
                                   que se arrasta
                ao oeste
        pelos filmes de bang-bang

          Há também um emprego público
                      que não tem lado
                      e me confunde
           uma viagem de férias para a praia
                       um mercado por fazer
        e na minha cama
                            bem real
                   um convite cor de chocolate

                       Estou limitado pelo sol
meus sonhos são elefantes com asas de cera
                             de abelha
                 enquanto a formiguinha da vida
        brinca de cobra-cega na selva
                              de preguiça ao norte
pelo sexo do sul
                                       para a finitude do leste

          Vou para oeste ganhar a vida
                         que lá tem fantasia
o motorista do ônibus morre
                  dormindo tranquilo
enquanto quarenta passageiros
                              morrem gritando
          A beleza da lua depende
                              da minha demência

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: "A estrada da vida", pintura de Hieronymus Bosch

24 março 2015

O ÚLTIMO KAMA SUTRA SERÁ NO MATO




















Lá vou eu ferro-velho de cidade-muralha-ideológica
                quando o primeiro bem-te-vi
              pousar no fio e voar eletrocutado
quando a fumaça de carros-deuses da luxúria
          abalroarem os primeiros palavrões
                     nos semáforos-chifres
estarei longe a galope com exu-pés-de-vento
desnudo dos abadás da civilização de mortos-vivos
   no cume do horizonte dos piratas aposentados
                               farei amor
                 como uma cobra enlouquecida
              à vista de estrelas verdes pastando
                     cansadas do céu-mentira
Lá vou eu penduricalho gasto de cidade-enfeite
                a manhã serpenteia me chama
    Ossain já preparou o sangue-fel de amora
vou transar com a lua penteando meus cabelos
                  como um urubu-rei
              do império da decadência

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Max Ernst (1938)

16 fevereiro 2015

ANSIEDADE




















O ônibus descia a rampa de tronco de árvore.
Saída de um conto de Gabriel García Márquez
Frau Frida no banco de águas frias sonhava.

Podia-se ver dali quase o ponto de chegada.
O chofer com o ônibus em movimento saltava.
O amor de Frau Frida puxava-a pelas janelas

embaçadas folhas e oceanos rodopiavam.
Dois pneus furados foram trocados por goiabas.
Frau Frida queria dormir porque trabalhava

mas exausta se perdia nos fios de Ariadne.
Tinha de pular cedo da cama e nunca chegava.
A um mísero quarteirão jorrava um rio de suas mãos.

Sem ponte foram improvisadas aves inidôneas.
Acordei: meus filhos eram raptados por cegonhas.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Jeff Wrench

17 janeiro 2015

A COLISÃO TRÁGICA DE MUNDOS NÃO SINCRÔNICOS



















Assentado na terra em louvação da Pátria, 
um naco de céu reluz dois olhos azuis;
era Mártir! como lhe jurara a Madrasta.
- Ó Verdade! traga logo a ele sua luz.

De súbito um ruído de asas pousou
sobre o peito do soldado e acampou estátua.
- Alguém aí? sabe que à espera estou,
já não nutre mais serviço esta carne fátua.

Perdera um dos braços, a boca sangrava...
- Profeta! que tanta demora que me mata?
Mas o silêncio comia o seu coração.

- Ó Misericórdia! por que perder antes a alma
aos olhos? Alguém aí que agora me salva?
Um canto cuspiu no prato: - Sem compaixão.

Alaor Tristante Júnior

ILustração: imagem do Google

01 janeiro 2015

de peito aberto

























pois onde há um gemido
     de luz
                  nós somos lidos

         baba-se no olho cego
                            árido de lágrimas

                      irracionais rios
       banham rugas em arco-íris
                               querubins transam
                 prostitutas negras
                               pálidas de céu

bicos de seios são verrugas

                        basta um olho
                no escuro
                                       mil olhos
                           engendram as trevas

anjos autênticos curam milagres
poetas de cristo ignoram a coragem
                                     das batalhas
e mijam ladainhas pelos cômodos
                      SILÊNCIO!

enquanto a Vida expiar
                as mágoas do altíssimo
baba-se no olho cego
                        onde houver um gemido
sobrevoam-se águias

                   AVANTE! POESIA!
                  não há mais trincheiras
                  a beleza está em guerra

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Antònio Pedro













29 dezembro 2014

LIVRO SAGRADO


















Abriu o diário oficial como todos os dias.
- Quanta imaginação! Se ao menos tivesse
ainda os ossos do ofício. – Mas aposentado!
Abria o diário oficial como todos os dias.

Metia-se à bolina de acostumados ventos.
- Fuçador nos lixões de coisas inservíveis -
acordava e dormia e havia o espaço
do meio... o passatempo da imaginação!

Abriu o diário oficial como todos os dias.
Nas letras pretas a cada morte uma nova
nomeação... os nomes já não lhe são conhecidos.
Se ao menos tivesse ainda os ossos do ofício.

Pensa Deus sobre todos nós seres humanos:
- pobres insetos desnorteados se mexendo!
Nesta pedra perdida de alucinados sonhos
abria o diário oficial como todos os dias.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: "A dança" de Henri Matisse

20 maio 2014

DESPERTAR ENTRE CUMES






















dormiu pelada na guimba
de um cometa anatômico
anjo negro arsenal erótico
chicote de estrelas caindo
sobre depilados grandes lábios

puta que pariu o dia
partiu ao chafariz do caos
madres superioras
capitães do mato
só dormem de calça jeans


Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura "fantasmagoria" de Iberê Camargo

28 dezembro 2013

EDITAL DE ANO NOVO: HUMILDADE PERANTE A NATUREZA

























Inventei atalhos no ano pretérito
descobertas incríveis do consolo
que ninguém vê mas dançam
que a noite tem medo 
do escuro por isso alerta
fecha os olhos na insônia
que o cachorro vê corações
e sorri pela ponta do rabo
mas isso todo mundo já sabe
que o homem sorri por fendas falsas
que o tempo perdido às vezes estaciona
e pede carona disfarçado
de grande amor da nossa vida
que as grandes vitórias estão sempre
para o próximo dia útil seguinte
enquanto nossos passos tropicam no gozo
efêmero da luz sem fim do túnel
mas há um cubo dourado de esperança
que enobrece a morte pessoal de cada um

Neste ano vindouro pisarei a merda
até que o herói dentro de mim
desande em vômitos de limpeza
registre-se publique-se cumpra-se

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Lucian Freud

20 setembro 2013

ENQUANTO O SEU LOBO JÁ VEIO...





















Já o sol masturbava a esperança da terra,
- oh! crianças! seguem num sono de perder
o fôlego! têm na tez a figura séria
da natureza! - no chão frio do amanhecer

padece o piar de envenenadas cidades
e ao longe ainda se ouve o uivo de lobos.
Não era um quarto era um celeiro de milagres
à espera do tempo que se negava ao sopro.

Meninos e meninas num cobertor negro
sonham; porque a vida não os dota do peso
insustentável do ser: - crianças são livres!

Enquanto os homens velam a banalidade
do mal e assistem estúpidos ao naufrágio,
corpos infantes dormem na cena do crime.

ALAOR TRISTANTE JÚNIOR

Ilustração:crianças vítimas de armas químicas na Síria.

15 setembro 2013

EU É O UNIVERSO




















Era longe só podia ser dentro de mim
          onde comerciantes dão esmolas
          para elefantes nas ruas
Donas de casa flertam garotos para se vingar
          de maridos castrados
A noite não dura quatro dias negros
          onde pássaros rastejam de fome
          enquanto cobras fazem festa no armário
Era longe mas parece que foi sempre
          o teatro de bolso redondo
          onde bocas se acasalam
          chupando palitos de fósforo
Há tantos caminhos sonhos loucos buracos
          antes da carne germinar
          de perfumes mágicos do esquecimento
Era longe mas não o bastante para o sexo
          comer alegrias mortas
          em camas de algodão
          onde criaturas nuas vestem
          suas primeiras roupas do prazer infeliz
          e esperam como rotina o próximo trem
          de fogo e apaga
Onde veículos humanos marcarão hora para atravessar
          apopléticas esquinas
          dos que vão e vem por nada
As pernas serão do tamanho dos dedos
          acorrentados em teclados
Pessoas corcundas terão olhos enormes
          em bundas achatadas
          na solidão de seus quartos
Era longe só podia ser dentro de mim
          a grávida vida possível
          se o eu morrer acaba

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Salvador Dali

14 setembro 2013

MÉNAGE À TROIS
























Agarrei-a de frente como convém a um forte;
com a lança jorrando fogo engaiolei seu fígado
atroz de esperanças; ao lado seu esposo absorve
inerte e se prostra ao machado rude do designo:

- só lhe resta expiar; passo a lubrificar as cartas
como rei manipulo o membro viril dos que podem;
a dama se curva à marcha mas cava intensas marcas
no rosto; há um valete invencível na desordem.

Chupo seus mamilos tônicos e erecto espezinho
o rego virgem fecal aos cônjuges proibido:
- gemidos profanam as invenções das leis divinas.

A sorte me trouxe ao mundo para fazer-me eterno...
comer a Vida à vista impotente de seu marido
traído, a Morte! - pois desde o início já era o Verbo.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: "morte e vida", pintura de Gustav Klimt

09 setembro 2013

AH! O AMOR!


























Estava nuvem quando me encontraram
só para dizer que eu era gente
com a cabeça na lua...

Esculpi o tempo de pérolas
me encontraram quase orgulho
só para dizer que eu era gente
de coração muito duro...

Corri pelos mares rosa
fantástica dos que procuram
Deus ou Diabo ao meu lado
insistia que eu era gente
cheia de pecados...

Era fogo mergulhado em água
quando uma mulher apaixonada
saiu de dentro de mim
só para dizer que me amava...

Também não era gente
era minha outra metade...

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Oswaldo Guayasamín


08 setembro 2013

EFEMERÓPTEROS













                                    divagando
                  numa brecha de vida
               a partida nas duas pontas
                    uma carne de luz
                   uma boca estranha
      não tinha estado nem pai nem mãe
                        não era dona
            ou filha do dono do mundo
                procurava a si mesma
albergada por estrelas que sussurravam
            - o seu tempo me apaga

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: imagem da internet

05 setembro 2013

PASSEIO PELA CIVILIZAÇÃO


























Sair para as ruas vermelhas e nuas
de sangue hipertenso da alma vadia.
São as ruas as veias que sinto e não vejo
e carregam alucinadas a morte dos sonhos.
Mas se fico trancado o Diabo passeia
enquanto Deus me estupra no quarto às escuras.
Há uma esquina dúbia de direções impostas
que se eu pudesse voar cavava um buraco
porque só os buracos me fazem gozar.
Hemácias leucócitos plaquetas e plasmas
são monstros com cara de gente doentes.
Acham de me dar oxigênio depois me matam
com suas crendices certezas e piolhos hercúleos
sugando a carniça de vivos-mortos insepultos.
Comigo não porque há tempo comi meu anjo
da guarda baboso que era uma fada africana
para que eu pudesse surrá-lo todos os dias
sem direito a maria da penha das frígidas.
Agora quando caio emburacando orifícios lúgubres
ele me levanta para que eu possa cair novamente
sobre buracos do prazer que valham a pena.
Enquanto o operário sem rosto da sociedade vomita
seus dias na insignificância do progresso econômico
ando pelado na caverna de todas as cores do mundo
e pinto esperanças para quem restar dos homens
porque nas ruas do instante meus pés pisam a merda.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura de Viktor Safonkin

01 setembro 2013

DESVÍNCULOS EM ELOS


















Descumprir a ordem para trair
porque trair é descumprir a ordem:
amores podem inventar o belo
mas jamais a beleza do mistério

matar a fidelidade à infância
alimentar-se de impressões românticas
para adulterar as regras do pai
procurar virtudes mudas das pedras.

Só não pode garantir o idílio
porque a maior excitação da alma
é ser traída pelo próprio corpo

até sorver os errantes vestígios
dos motivos cada vez mais distantes
da primeira insanável traição.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: "Os argonautas", pintura de Max Beckmann

24 novembro 2012

AUGÚRIOS DE PEDRA



















Há um leão-marinho
                    trepando-me
(seu único olho comprova)
quando fui gente
não sabia que seria
                          uma pedra
lambida pelas águas
de ondas de lua do mar.
Se escorria pelos vãos
            pétreos
                         do destino
um felino
                   me aguardava.
A sorte foi que me fiz
                         pesadas
                         lágrimas
                         de rocha
que teimava em se
                                revelar
                                viva
pelos cílios (ou matos capins
                            braquiárias)
                    volúpias
que cresciam por todo o
                             corpo.
Passei a existência
tentando descobrir o
                                 branco
no preto do meu chapéu.
Até que um dia as águas
me cobriram para sempre
      xuá... xuá... xuá...
dei à luz ébrias conchinhas
         e o leão-marinho
             pediu DNA.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: imagem do GOOGLE

21 novembro 2012

O AMOR DE SCHOPENHAUER



















Na célula de solidão
a cama tão grande
dispensa unhas vermelhas.
Da porta (que porta?)
                 o tempo
                 contempla
e se come autofágico
à espera de si mesmo:
a moça nua
na posição de concha
captura o futuro
de seus descendentes.

Entre quatro paredes
o desencanto
mora no canto
          da frente:
no frenesi efêmero do
                         prazer
a volúpia é séria
porque a natureza
               não sorri.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura realística da artista americana Alyssa Monks.

19 novembro 2012

SÚCUBO


























Não pode ser suco
                 lento
chegar na madrugada
à míngua de sono
tampouco é cubo
são partes desiguais.

O silêncio maiêutico
na sílaba do meio
resume o amor
de quem caça mais
o segredo um do
                           outro:
lúbrico demônio feminino.

Atravessa o lençol
                           de solidão
para somente chupar
                           sublime
a boca feito porta do 
                           inferno
aniquila toda esperança.

Depois me abandona
                           diacho!
sem se deixar enfiar
                           por baixo
"porque trepar é humano
              chupar é divino."

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: imagem do Google

14 novembro 2012

A REVOLTA DE ATLAS


























A revolta de Atlas
derrubou a ponte
           cervical
entre o corpo e o crânio:
nasceu a alma.

A revolta de Atlas
enxugou as águas
           do Atlântico:
do abismo seco da fome
           a cidade
engoliu o buraco.

A revolta de Atlas
           trouxe os céus
           ao rés do chão:
virou bola nas mãos de Chaplin
e o mundo se fez uma reta.

A revolta de Atlas
            primordial
apagou todos os mapas
            do meu destino:
caminho na ponta do lápis
e o lápis é meu inimigo.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: imagem do Google

09 novembro 2012

COISAS DA ABSTINÊNCIA


















               Sobre a mesa
a cesta de frutas
                se oferece
para a minha fome
                de carne:
uma maçã e uma banana.

                Como uma ideia
não mato a fome
                mas o amarelo
                e o vermelho
misturam-se ao verde
                dos meus olhos
e sem pejo
                copulam à vista
                               desarmada:
a banana fricciona o prepúcio
                (sua casca)
desnuda a singular glande
                                           branca
enquanto a maçã de
                 rubras nádegas 
                                           redondas
                 gargalha-me
                                   de batom.

- Volto a pensar na vaca...

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: imagem do Google

02 novembro 2012

MÁRCIA

























Ainda escalo castelos
           imaginados
e me faço Romeu
           por que eu?

Nossos beijos têm o mesmo
           gosto primeiro
a viajar nas rugas falsas
           do calendário
           que tempo?

Morreram as flores
do canteiro que a amei
a blusa salmão que mágico
fiz virar pele morena
maduraram nossos filhos
para a vida comer
na eterna fila do adeus...

mas basta o próximo
                                  abraço
            eis a verdade
na amêndoa cor de seus olhos
           o renascimento
                do amor
                   que
              (inclusive)
            tem seu nome.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: pintura "Romeu e Julieta" de Frank Bernard Dicksee

POEMA ESCATOLÓGICO





















Cagar é mais importante
do que rezar
     porque a merda
               é a gênese 
de todas as filosofias.

O pensamento
é o papel higiênico
              insuficiente
                                da hora H.

Então, gritamos:
- Meu Deus!
como se fosse possível
        palavras
                       purificarem.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: obra de Carlos Huante

01 novembro 2012

DEPOIS DE AGORA
























O homem se perdeu
na superação e se fez
o além do homem.

      As invenções
             órfãs
                     da extinção
         reuniram-se
                     para o suicídio
                                             coletivo.

Houve derradeiras lamentações
                humanas
                  (ainda)
como forma de saudade:

Branca de Neve
sempre quis ser mulata.

O Saci alisa os pelos
da perna que lhe falta.

Papai Noel balança a pança
arranca o gorro e mostra o saco.

Jesus voltou várias vezes
mas ninguém acreditou.

O Diabo
a Democracia
e a Justiça
preferiram calar-se
como último ato.

Só Deus não compareceu.
             Depressivo
no seu trono de ex-déspota
             da humanidade
sonha com a evolução dos ratos
para afligir um novo reino.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: tela "Máscaras" de Nolde Masks

23 outubro 2012

ASSEIO





















barulho de chuva
parece que toma banho
a minha alma

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: Leonid Afremov

22 outubro 2012

SER OU NÃO SER


















Chegou quando partiu primeiro
silenciando todas as metáforas
como num átimo gozo.

A grande pergunta
foram meus pés
de chão limitado

passos medidos
em tempos-currais
na trama dos olhos.

Atestado meu estado vivo
abraço a sombra da vida
porque a trago nas costas.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: imagem do Google

20 outubro 2012

AINDA SOBRE SER POETA


















                   Poeta não é escritor
                   é estado de espírito.

Conheço um poeta
                             analfabeto
que exala poesia
no reverso dos olhos
                            movimentos de dedos
                            gotículas de saliva
                            capturam o tempo.

                   A poesia é livre
                   das amarras do nexo
                   não são versos
                   aprisionados em livros
                   como um trem de letras
                   viajando na pauta
                   de parágrafo ao fim
                                               da linha...

Não se compra passagem
                         para a poesia
tem que ter dinamite!
"A negro, E branco, I rubro,
U verde, O azul: vogais".
Tem de romper perfumes
um gosto alheio de chumbo
gestos abraçando palavras
palavras parindo silêncio
como se tudo estivesse
ainda naquele instante
a se formar no ventre.

                   Poeta não é escritor
                   é estado de espírito
                   leva consigo um
                                             segredo
                   trazido do útero.

Alaor Tristante Júnior


Ilustração: foto do poeta Arthur Rimbaud

02 outubro 2012

REFLEXÃO


























No espelho do banheiro
              a imagem
do desconhecido roteiro.

Não reconheço o nariz os olhos
               o porquê
                            da respiração.

Onde está aquele menino?

                 Menino não cresce
                 morre para o desejo
                 de falsas promessas.

Se não fossem aquelas fotos
imperdoáveis de mamãe...
mas quem garante que sou eu...
                  e não projetos
                            que não deram certo?

                  Eu nasci hoje.
O passado são sonhos dos outros.

Alaor Tristante Júnior

Ilustração: imagem retirada do Google


01 outubro 2012

SEGUNDA-FEIRA




















A segunda-feira será longa...
e você sendo enfiado
                      aos poucos
longamente pela maldição
                      bíblica
do suor do próprio rosto.

Segunda-feira é a encenação
do eterno retorno.
É quando pelo ângulo
                      da mentira
enxugamos o gelo do tempo.

Mas se o domingo foi um tédio...
é porque não nascemos para assistir
                      ao espetáculo
temos que representar a vontade.

Se alguém lhe perguntar
                      como vai?
Diga, simplesmente:
- Vivendo e gostando!

Alaor Tristante Júnior


Ilustração: pintura antiga hindu.